Ele bocejava enquanto escutava o policial, do outro lado da linha, dar detalhes sobre a perseguição ao culpado pela morte do seu amigo, Tristão. O trágico evento ocorrera há cinco semanas, após uma longa noite na qual os dois exageraram na bebida e acabaram se envolvendo em confusão no Bar do Alemão. Fernando, esse que estava ao telefone com as autoridades, achara, na ocasião, um ótimo alvo para as suas piadas: o garçom que mancava.
— Ô coxo, desce mais uma gelada — foi como ele começou. Ao ver a cara fechada do atendente, baixou o nível, como ele adorava fazer, chamando-o de Perna-Curta.
Tristão, que viria morrer em menos de três horas, riu da primeira joça, mas sentiu seu rosto queimar quando as piadas ficaram mais intensas e de mau gosto. Tentou restringir o amigo, mas Fernando acabou entusiasmando-se ainda mais em ser do contra.
As animosidades agravaram-se quando o garçom resolveu pedir para que as brincadeiras cessassem. O apelo foi respondido com uma ameaça — que se não houvesse sorriso durante atendimento não haveria gorjeta — e um xingamento ainda mais vulgar.
— Ele vai cuspir na nossa comida, Fernando — disse o falecido, pedindo prudência.
— Vai nada, mas a ideia é boa — respondeu, abrindo um sorriso.
E a comida chegou. E os dois comeram-na. Era só mandioca frita com carne de sol. Não que seja ruim, mas difícil imaginar que este seria o prato escolhido pelo Tristão como sua última refeição.
Quando o garçom limpava a mesa, Fernando piscou para o amigo e, como se estivesse revoltado, levantou-se da mesa gritando, xingando o atendente e exigindo conversar com o gerente.
— Eu sou o proprietário, o que aconteceu aqui? — perguntou um homem alto, branco e loiro que chegou à mesa.
— Seu serviçal acaba de nos dizer que cuspiu na nossa comida.
— O quê? Eu não disse e nem fiz isso! — gritou o atendente, com o rosto vermelho.
A discussão que se iniciou com essas palavras se estendeu por mais vinte minutos e o resultado foi uma demissão e a gratuidade da refeição comida — assim como bebidas complementares por conta da casa.
Tristão bem que podia ter dito algo, mas preferiu ficar calado — talvez por sentir-se constrangido por desmentir o amigo de longa data, ou talvez porque estava curioso para ver até onde aquele circo iria. Seja como for, acovardou-se. Geralmente, não se fala mal dos mortos, mas como neste momento ele ainda estava vivo, pode-se dizer que ele foi tão bosta quanto o amigo. Além do mais, ele brindou as bebidas que vieram após o incidente — essas sim contendo fluídos corporais, mas de um outro atendente.
Os dois amigos saíram de lá trocando as pernas e contando, a todos que viam pela rua, que a noitada fora custeada por um garçom coxo e trouxa.
Foi, neste instante, que Fernando viu o seu amigo pela última vez. O garçom demitido esperava-os, na companhia de mais cinco pessoas — todos trabalhadores dos bares da região — e puseram-se a correr atrás dos bêbados, com a intenção de linchá-los.
Fernando conseguiu atravessar uma larga e movimentada avenida — sem ser atropelado — e entrou em um hotel de alta classe, em segurança. Tristão não teve a mesma sorte. Correu para a direção oposta do amigo, atraindo o grupo para si.
— O acusado disse que o seu amigo escorregou e bateu a cabeça no chão — disse o policial, durante a ligação.
— Eles o empurraram. Eu vi tudo — mentiu.
O relato convenceu o policial a intensificar os questionamentos naquela noite para arrancar uma confissão do suspeito e, assim, levar um caso mais concreto para o tribunal.
— Faço questão de testemunhar — disse Fernando, tentando segurar o riso. Lamentava, em silêncio, não ter visto o garçom perneta correndo. Imbecil.
Ele ainda teve a audácia — audácia! — de culpar o falecido pelas brincadeiras, dizendo, em bom tom, que tentara cortar as hostilidades ainda na mesa do bar. Que filho da puta. Sinceramente? Não dá para aguentar.
Eu me levantei, com o sangue quente, peguei um estilete e, com ele, cortei o papel. O buraco, pequeno, era suficiente para eu passar. Caí em um grande salão completamente branco e, após andar por alguns minutos, cheguei em uma porta. Virei a maçaneta e a abri. Do outro lado, um quarto pequeno e escuro. Fechei a porta atrás de mim e logo me vi em um canto escuro da sala do imbecil. Ele ainda conversava com o policial.
Vi um violão encostado em um sofá, o peguei pelo braço e, sem pestanejar, acertei o babaca com um golpe na cabeça. Ele caiu igual a uma batata no chão. Daí em diante, ficou ainda mais fácil espancá-lo. Quando terminei, ele estava completamente desfigurado. Do outro lado da linha, o policial gritava, pedindo explicações pelos barulhos ouvidos.
Antes de voltar para o canto escuro da sala, disse ao caído que eu estaria acompanhando-o.
Voltei ao quarto escuro. Não tive dificuldades em encontrar a maçaneta. Abri a porta e a fechei. Andei novamente no salão em branco até achar o buraco. Passei por ele e, com um pedaço de fita adesiva, tampei-o.
E Fernando permanecia ali, caído. Ficou no chão até a ambulância, requisitada pelo policial do outro lado da linha, chegar ao prédio e os paramédicos resgatá-lo. Quando estava internado no hospital se recuperando dos ferimentos, recebeu a visita de um policial que queria fazer um boletim de ocorrência pelo espancamento. Ele, ciente dos acontecimentos, considerou as suas opções.
Antes da resposta, retirei o adesivo do buraco e sussurrei:
— Pense bem no que vai dizer.
Foto: marianabarros.art


Em algum momento fui transportado de um estado de leitura para um de imersão na cena. Incrível!
Sabe que ás vezes eu fico pensando nessa regrinha de que o autor não deve julgar o personagem e tal, e daí esse texto vem e corta isso pelo meio hahaha eu adorei