Ele rasgara a carta ao final do primeiro parágrafo e saíra de casa, furioso.
Percorreu as escuras ruas do seu bairro em passo rápido. Atravessou a avenida principal sem se importar com as cores vermelhas do sinal e fez gestos obscenos a todos que se opuseram à sua determinação. Entrou na estação ensaiando o discurso para ser vomitado na cara da ingrata: uma mistura de revolta pela covardia e praga para o futuro.
Na plataforma, ele ignora os outros passageiros. Pensa nos anos de relacionamento, nos bons e nos maus momentos, nas suas traições e nas suas inúmeras tentativas de findar aquele namoro: antes dos carnavais, após as pressões por maior comprometimento ou após períodos de indiferença. Sabe, naquele instante, que ela não é a mulher da sua vida, mas sente ódio pelo rompimento unilateral, por carta. Considera fazer algo terrível.
Algo que a deixará com remorso. Que a atormentará por toda a sua vida.
Vê o trem.
Bastaria um passo. Ela saberia que seria por sua causa. A ação a condenaria a sempre carregá-lo consigo. O peso a esmagaria e acabaria, de certa forma, mais com a sua vida do que com a dele. Seria a vingança perfeita.
Porém, assim, ele não terá futuro. Não poderá ver o sofrimento da sua nova nêmesis. Estará indiferente a qualquer sentimento dela porque não terá ele mesmo sentimento algum.
Espera o trem parar e embarca, covardemente. Decide que a confrontação lhe é preferível. Sabe que pode provocar assim, um efeito tão devastador quanto o da sua prematura morte.
Ele faria com que ela se arrependesse do término e do futuro que não seria: casamento, filhos, netos, felizes-para-sempre. Ao fim do encontro, ela imploraria por perdão e pediria clemência. Prometeria submissão. Ele, no entanto, não se curvaria àquelas súplicas e sairia da casa do jeito que entrou: firme, forte e determinado. Arranjaria uma nova namorada em pouco tempo. Seria mais prendada. Se curvaria às suas vontades e às suas necessidades. Dar-lhe-ia filhos. Varões, de preferência. O antigo amor veria a sua felicidade com inveja. Ela nunca se recuperaria e viveria em depressão e angústia. Poderia até ter outros relacionamentos, filhos, mas sempre pensaria no que teria sido.
Sai do trem, já não tão certo. Esquece seu discurso. Lembra-se dos seus sentimentos e das suas próprias imperfeições. Não está mais certo se ele pede perdão ou bombardeia o relacionamento de vez. Lembra-se do tom amigável da carta e incomoda-se pela sua abrupta reação, sem a conclusão da leitura. Pensa numa possível humilhação.
Ele chegaria na casa dela transtornado e, no fim, seria desmentido pela amada, que ficaria furiosa com a conclusão precipitada, negaria qualquer intenção de término com a carta e poderia, em um momento de raiva, executar o relacionamento ali, à queima-roupa.
Ele decide se acalmar. Anda pelas ruas, sem destino. Olha para os casais na praça. Fantasia dividir um daqueles bancos com ela. Tem a certeza de que pode recuperar o relacionamento. Resolve.
Irá, dali, até a casa dela. Pedirá perdão. De primeiro, ela não aceitará, mas com insistência, dar-lhe-á mais uma chance. E ele a usará para se comprometer. Será mais atencioso. Importar-se-á com os sentimentos dela. Avançará com a relação. A desconfiança será abalada com as suas ações ao longo do tempo. O noivado, o casamento e os filhos não tardarão. Filhos ou filhas, não importará. Os netos virão. E a velhice, ao seu lado. No leito de morte, olhará para trás e constatará a vida perfeita e sorrirá, feliz.
Isso, se não tivesse ignorado outro sinal vermelho.
Foto: marianabarros.art


Bernardo, que texto incrível. No início parece que estamos a ler sobre um vilão cheio de ódio e vingança, mas depois bate a dúvida e o arrependimento. Sente-se a clareza a chegar logo a seguir à impulsividade: aquele desejo de que seja 'só ela' para o resto da vida. No fundo, o vilão é só um humano em busca de redenção que decide finalmente entregar-se... e é aí que o sinal vermelho aparece. É um murro no estômago essa ironia do destino.
Gosto que vc consegue descrever perfeitamente a confusão mental de um momento de desespero. Sua ironia é sempre marcante!
Genial também o jogo com os tempos verbais. Parabéns!