Nero decidiu evacuar assim que ouviu o alarme soar. Desceu afobadamente as escadas acarpetadas do seu prédio, temendo ter seu caminho bloqueado por fumaça ou chamas — sobretudo ao perceber que o barulho da sirene aumentava conforme ia descendo. Somente se acalmou quando passou à frente à porta do apartamento de onde vinha o barulho, atestando que o fogo ainda não se alastrara.
Já na calçada, reuniu-se com os vizinhos, também a salvo, e trocou informações para saber o que aconteceu. Ouviu de um morador do quarto andar que os bombeiros já estavam a caminho e que bateu na porta do apartamento em chamas, mas ninguém atendeu.
— São aqueles maconheiros do 202, — disse a moradora do 203. — Devem ter deixado algum cigarro aceso.
— E se estiverem chapados e desmaiados? Não deveríamos ir até lá resgatá-los? — perguntou Nero, com uma voz desgastada.
O consenso a que chegaram — não externado por ninguém mas entendido por todos, — era de que as vítimas daquela tragédia seriam os próprios culpados e, portanto, não cabia a ninguém ali se arriscar para salvá-los. Melhor seria esperar pelos socorristas, seguindo assim as recomendações das próprias autoridades para casos desse tipo.
À medida que eles viam o fogo se propagando pelos apartamentos vizinhos, crescia a indignação dos moradores. Uns, pelo prejuízo atestado e outros, pelo presumido. Eles só se acalmaram quando um dos que assistiam ao infortúnio comentou o quanto era improvável que os culpados pelo incêndio tivessem sobrevivido àquela tragédia. Uns diziam que era castigo divino pelos maus hábitos, outros, que era carma. O choque pela calamidade, no entanto, parecia ser um sentimento mútuo, apesar de a maioria ali se sentir feliz que os delinquentes tivessem sido vítimas de suas próprias ações.
Já estavam convencidos de que perderiam tudo e que nunca conseguiriam justiça, quando viram aparecer, em meio aos caminhões dos bombeiros que lutavam contra as chamas, os responsáveis por tanta dor.
— Lá estão os maconheiros! — gritou o morador do 302, pouco antes de aferir o primeiro golpe contra a cabeça do vizinho.
Os policiais que estavam ali fazendo um cordão de isolamento para auxiliar o trabalho dos bombeiros não fizeram nada para acalmar os ânimos da multidão. Sabiam que a situação estava fora do seu controle, tal qual o fogo que engolia o prédio.
Quando não havia mais nada a ser consumido, as chamas se extinguiram e todos ali presentes puderam ver o resultado da tragédia. Os moradores, desesperados, não podiam acreditar no estrago feito. Suas vidas agora não passavam de um escombro, cujas cinzas nunca voltariam a ser o que um dia fora. Enquanto isso, o corpo de bombeiros ainda tentava apagar o incêndio.

