Ele dormia embaixo de um banco público, em uma praça pouco frequentada, quando uma fria gota de chuva atingiu a sua testa. Acordou desnorteado. Estava sozinho. Notou que o seu abrigo não o protegia adequadamente e se viu obrigado a procurar outro local para fugir do mau tempo.
Viu, à distância, um ponto de ônibus e decidiu correr até lá. Quando se levantou, no entanto, prendeu um dos seus pés entre as pernas do banco e o torceu, por pouco não caindo em uma poça d’água e se molhando completamente. Mancando, apressou-se até a cobertura de cimento e sentou-se no canto. Seu pé doía.
Pouco tempo após chegar, viu um pai e uma filha se aproximarem, correndo para não se molharem. Ao entrarem debaixo do abrigo, ele ficou imóvel, de cabeça baixa, como se aquilo fosse evitar que fosse visto, mesmo os dois a poucos metros de si.
Ouvia, sem escutar, a conversa entre o pai e a criança, até ter sua atenção presa por uma pergunta da menina:
— Tem lobo aqui?
— Lobo? — perguntou o pai, surpreso. — Não. Não tem lobos em cidades.
— No zoológico tem.
— Sim, no zoológico tem.
— Mas na rua não?
— Não, ainda mais numa cidade desse tamanho.
Ousou olhar para os dois e percebeu que a menina o encarava enquanto conversava com o pai, como se a conversa estivesse direcionada a ele. Quando os seus olhos se cruzaram, ele abaixou a cabeça rapidamente, temendo ser jogado no meio da conversa e ter que explicar por que estava ali, naquele bairro, àquela hora.
Apenas levantou os olhos quando ouviu mais pessoas se aproximando. Notou que o grupo era grande e achou prudente sair dali, já que certamente não haveria lugar para todos debaixo daquela cobertura.
Correu, mancando, em direção a um bosque, como se fosse um animal selvagem, pulando em meio aos arbustos e debaixo das árvores, tentando se ocultar. Talvez pudesse viver ali, para sempre, longe de olhares de crianças. Passou horas agachado, molhado, com frio. Quis dormir, mas não conseguia.
Quando parou de chover, se deparou com uma criança — que ele reconheceu como a mesma que tinha visto pela manhã no ponto de ônibus —, vindo em sua direção. Abaixou o olhar e ficou imóvel, com a esperança de não ser visto, mas ouviu:
— O que você está fazendo aí?
Diante do silêncio, insistiu:
— Eu estou te vendo. Não adianta esconder.
A fala o surpreendeu e, quando ele levantou a cabeça, viu que ela o encarava.
— Só estou tentando dormir. Não quero confusão.
— Por que você não vai para casa?
— Eu não tenho casa.
— Você quer ir até minha casa? Você pode dormir no meu quarto.
O convite o assombrou. Ele gaguejou e respondeu que não, obrigado, não poderia se impor daquela forma. A menina insistiu, oferecendo comida e falando que tinha mais do que o suficiente em casa. Ele cedeu.
Levantou-se e caminhou, vagarosamente, até o seu lado, esperando por uma indicação por onde deveriam seguir. Ela se virou e começou a caminhar em direção a um alto prédio no fim da rua.
— O que você tem na perna? — ela perguntou, ao vê-lo mancando.
— Machuquei o pé.
— Talvez ele melhore depois que você comer algo — disse a menina, com um sorriso no rosto.
Os dois seguiram, lado a lado, até a entrada do prédio. O porteiro abriu a porta sem fazer alarde e, em poucos segundos, estavam subindo de elevador até o décimo andar. Um sino indicou o fim da jornada e, dali em diante, a menina liderou o caminho. Abriu a porta que estava destrancada e convidou o visitante até o seu quarto. Disse que ele poderia se sentar no tapete no chão enquanto ela preparava algo para ele comer.
— Você gosta de macarrão?
— Nunca comi.
— Não? Vou fazer para você. Você vai gostar.
Ela foi até a cozinha, no lado direito, e começou a preparar o prato. Em menos de dez segundos o serviu ao visitante, que comeu tudo rapidamente e pediu para repetir.
Ao fim da refeição, a menina perguntou se ele gostaria de dormir. Assim que ouviu o “sim”, ela foi até uma cama de boneca, ocupada por um ursinho de pelúcia, e a desocupou, arrumando um pequeno travesseiro e uma colcha para o convidado. Ao se deitar, ele sorriu pela primeira vez.
Enquanto ela ajeitava a sua coberta, a mãe da menina entrou no quarto e a viu ajoelhada ao lado da pequena cama.
— Quem você está colocando para dormir?
— Um amigo meu. Eu encontrei ele lá fora. Ele estava com frio e fome.
— Ele vai morar aqui?
— Sim.
— Qual o nome dele?
— Não sei. — Se inclinou até o ouvido do convidado e perguntou: — Como você chama?
— O que ele disse? — perguntou a mãe.
— Ele disse que não tem nome. Vou chamar ele de Lobo.
Lobo sorriu com o nome. Seu pé não doía mais.


Suspense bom. Pensei que teria um fim trágico.