Ela não conseguia resistir. Tentava abaixar a cabeça, desviar o olhar, mas era impossível: voltava a mirá-lo, ali, conversando, sendo o centro das atenções, da admiração de todos à sua volta — talvez de toda a cidade.
Seria o seu par ideal: tinha um bom emprego, estável — com plano de saúde —, não precisava viajar muito, tinha influência e era bonito. Como era bonito.
Olhou de novo.
Seus olhares se cruzaram e ela, em pânico — e vermelha — olhou para o seu colega, em pé ao seu lado.
Como eram diferentes os dois.
Já que não se importava se o rapaz a pegasse olhando para ele, ela o analisou, friamente.
Deviam ter a mesma idade, ela e ele — ao contrário do seu interesse, mais velho, mais experiente. Fazia também apenas um bico. Seriam colegas apenas temporariamente. Certamente ele não continuaria naquela área, não seguiria a profissão do seu amor. Sim, amor. Era amor, não havia como negar.
Ficou vermelha de novo.
Bem na hora em que o rapazinho olhava para ela. E se ele pensasse que ela tinha interesse nele? Seria uma tragédia! Poderia comprometer todo o seu futuro ao lado do seu futuro marido. Ou marido era exagero? Afinal, não sabia qual era a opinião do seu amado sobre um relacionamento estável. E se ele não estivesse interessado em se casar? Talvez fosse uma mudança muito drástica em sua vida. Um namoro — até mesmo um não assumido — já seria suficiente. Não via necessidade de rótulos, desde que estivessem juntos.
Ao contrário do menino — menino! — que ousava encará-la. Ele sim, devia estar louco para se casar. Ainda mais com a família que tinha, todos religiosos e certamente contrários a um namorico. Querem que ele tenha esposa, filhos.
Olhou de novo para o seu amor. Ele ainda falava.
Todos continuavam prestando atenção — com a exceção de um ou outro desnaturado. Como não prestar atenção naquela figura, naquela boca. Naqueles lábios.
Naqueles lábios…
Como ela queria beijá-los.
E se ela tomasse uma iniciativa? Talvez ele gostasse. Mostraria a ele que ela sabia o que queria, que era madura, forte.
Estufou o peito.
Por que não?
Poderia ser ali mesmo, quando surgisse uma oportunidade.
Olhou em volta. Havia uma movimentação. Era o momento.
Levantou-se e caminhou, vagarosamente, até o amado. Ele não falava mais com o grupo. Oportunidade melhor não teria.
Logo, estavam próximos um do outro. Ela decidiu que não mais desviaria o olhar. Mesmo se ficasse vermelha.
Mas, e se não fosse correspondida?
Seria humilhada, na frente de todos?
Precisava decidir-se.
Avançava ou desistia?
Seu rosto queimava. Ele percebia. Certamente percebia. Saberia que era por causa dele?
E então, ficaram de frente a frente.
Encararam-se.
Ele aproximou a mão do seu rosto. Iria tocá-la?
Foi quando ouviu dele:
— O corpo de Cristo.


Brilhante término 😉.