Assim que ele saiu, às pressas, ela andou pela casa e constatou a bagunça deixada: roupas no chão, toalha molhada em cima da cama, louças sujas na pia da cozinha, leite e manteiga fora da geladeira, restos de comida sobre a mesa de jantar.
— Todos os dias a mesma coisa — disse, em voz alta, como se pudesse ser ouvida por ele. — Se acordasse dez minutos mais cedo não teria esse estresse todo.
Contemplou se deveria deixar tudo como está, jogando a responsabilidade de arrumar tudo para o autor do caos. Talvez assim ele se desse conta de que ele pouco ajudava na arrumação do apartamento. Talvez assim ele finalmente a visse e percebesse a valiosa contribuição que ela dava, todos os dias.
Ela sabia, no entanto, que estava fora de cogitação fazer tal greve. Não era de sua índole. Ela nunca poderia cruzar os braços enquanto o leite amargava fora da geladeira, ou a toalha molhasse, lentamente, a cama. Além do mais, ela gostava da arrumação, de ver tudo organizado. Queria apenas reconhecimento pelo seu esforço. Nem que fosse um “obrigado” aos ventos, sem um contato visual ou um carinhoso abraço.
Guardou o leite, a manteiga. Estendeu a toalha no banheiro. Lavou as louças e colocou as roupas sujas na máquina de lavar. Ela sabia a que horas ele chegaria em casa e quanto tempo teria para arrumar tudo. Não teria que fazer nada correndo. Estava tranquila. Fez faxina no banheiro, varreu o chão, limpou os espelhos, as janelas. Colocou tudo no seu devido lugar, mesmo sabendo que ele nunca mantinha a sua organização e guardava tudo onde bem entendesse, obrigando-a a refazer tudo assim que ele saísse novamente.
Sentiu orgulho do trabalho feito, concluído poucos minutos antes de ele retornar, no início da noite. Já tinha comido na rua e não precisaria cozinhar. Queria apenas relaxar no sofá até a hora de dormir. “Pelo menos não precisarei limpar panelas sujas amanhã”, ela pensou, com certa satisfação.
Como esperado, ele não notou o quanto a casa estava limpa. Não percebeu que a roupa estava estendida. Não percebeu o resgate ao leite ou à manteiga. Estava apenas ali, inerte, no sofá, sem sequer reconhecer a sua presença.
Enquanto ele via televisão — lazer que não a agradava — ela reparou que ele mexia constantemente no seu celular, como se o aparelho fosse o foco da sua atenção, e não o programa que passava na tela. Percebeu que ele digitava constantemente e, após cada notificação recebida, sorria como uma criança entusiasmada. Ele conversava com alguém.
Sentiu vontade de perguntar quem e o porquê dos sorrisos, mas ela não teve coragem, afinal, ele tinha direito à sua privacidade. A atitude, porém, a incomodou bastante. “E se fosse uma mulher?”, considerava, com certo constrangimento. Se seu rosto pudesse enrubescer, ela teria ficado vermelha.
O entusiasmo, porém, não durou muito. Alguma mensagem trocada não foi bem recebida e o seu humor virou. O sorriso deu lugar a um semblante sério e, após mais algumas notificações, a um olhar fechado. Ele bufava e chegou a xingar alto. Ela não ousou se intrometer.
Resolveu que comeria, sim, algo. Ele foi até a cozinha, abriu o freezer e pegou uma lasanha congelada. Esquentou-a no forno micro-ondas e, enquanto esperava, devorou um bolo de supermercado comprado no dia anterior. A lasanha foi igualmente consumida com fervor e a refeição foi complementada com um pote inteiro de sorvete e com um resto de um cheese cake quase esquecido no fundo da geladeira. Quando ele saiu da cozinha, ela viu o estrago feito à sua arrumação. Quis arrumar tudo, ali, desde já, mas achou prudente que o fizesse no dia seguinte, quando ele saísse de casa.
Ele levou consigo o mau-humor para a cama. Deitou-se sem falar qualquer palavra, sem tomar banho, sem escovar os dentes. Rolou na cama por horas sem conseguir dormir, enquanto ela permanecia ao seu lado, impotente.
Quando ele caiu no sono, ela continuou a observá-lo, contemplando se deveria ajudá-lo de alguma forma, mas tinha medo da sua reação ao ouvi-la se intrometendo.
Após alguns minutos de um turbulento sono, ele acordou aos gritos.
— O que aconteceu? — ela perguntou, quase sem voz.
— Tive um pesadelo.
— Isso sempre acontece quando você come muito antes de dormir.
— É, eu sei.
— Quer algo? Um copo de água, talvez?
— Não, obrigado. Vou tentar dormir novamente.
Ao fechar os olhos, ele lembrou-se de que morava sozinho.
Foto: marianabarros.art


Um terror mágico :D
Dupla personalidade ou assombração? 🤔👏👏