O grupo esperava, na sala fechada, pela chegada do organizador da reunião, o Sr. Silva, ainda na cozinha preparando a comida a ser servida aos convocados.
Os sofás, comprados pela associação dos moradores daquela república, estavam ocupados pelos membros mais seniores: justamente os que contribuíam mais com o orçamento doméstico e, por isso, se viam no direito de ocupá-los. O restante dos presentes sentava-se no chão ou se mantinha em pé, encostado na parede do amplo cômodo.
— Obrigado por terem vindo — disse o Sr. Silva ao entrar, segurando duas bandejas de petiscos e distribuindo-os.
— Por que essa reunião? — perguntou o Sr. Li ao pegar algo servido. — Não tenho tempo a perder.
— Queria conversar com todos a respeito das regras da casa — disse o Sr. Silva, em pé, com as mãos agora vazias. — Temos tido alguns problemas com o uso da cozinha. Alguns moradores têm pegado a comida de outros sem pedir e outros têm deixado o espaço bagunçado.
— Você, inclusive — acusou o Sr. Müller, encarando o anfitrião.
— O foco desse encontro não é acusar, mas encontrar soluções gerais para os nossos problemas — rebateu o Sr. Silva.
— Temos um assunto mais urgente do que esse para ser tratado: o incêndio — disse o Sr. Jessen, em alto tom.
— Qual incêndio? — perguntou o Sr. Smith.
— O da cozinha — respondeu o Sr. Moreno, um dos sentados no chão.
— Acho que precisamos parar com essas ficções — rebateu o Sr. Smith. — Não há incêndio algum na cozinha.
— Basta entrar para sentir o calor.
— Lógico que está quente lá dentro. É uma cozinha, com forno, fogão.
— Quase todos nós já o vimos, Sr. Smith. Perdi parte da minha comida por causa dele — comentou o Sr. Moreno.
— Não há como saber se você perdeu sua comida por causa de um incêndio ou por simples negligência.
— Estamos perdendo tempo com esse assunto. Temos temas mais importantes para tratar — disse o Sr. Müller, irritado. — Não faremos nada em relação à reforma feita pelo Sr. Smirnov?
— Os problemas vindos por causa da reforma do Sr. Smirnov estão restritos ao seu quarto e ao quarto do Sr. Melnyk — disse o Sr. Silva. — Os dois precisam se sentar juntos e conversar a respeito.
— Eu me recuso a sentar com esse homem — disse o Sr. Smirnov, enquanto encarava o vizinho.
— Você se recusa? Foi você quem começou essa reforma sem qualquer autorização do congresso de moradores, tomou parte do meu quarto e agora se faz de vítima?
— Acredito que a agenda desta reunião não inclui essas disputas particulares — interrompeu o Sr. Li, irritado, enquanto pegava mais um petisco da bandeja deixada perto de seu sofá.
— Acho que esta reunião está sendo um fracasso. É muita opinião vinda de muita gente. O que precisamos é de criar um grupo que possa tomar as decisões e simplesmente informar o restante dos moradores — afirmou o Sr. Smith, levantando-se do sofá. — Criarei uma pequena comissão que tome conta desses assuntos.
— Sem dialogar com o restante dos moradores? — protestou o Sr. Moreno.
— Terão voz os que mais contribuírem — rebateu o Sr. Smith.
— Nós já temos um grupo que faz isso — disse o Sr. Silva. — Nós o formamos quando montamos a república.
— Aquele grupo não funciona — rebateu o Sr. Smith. — Eu chamarei os novos integrantes do grupo e aí podemos resolver esses assuntos.
— Acho que deveríamos conversar agora sobre os tópicos mais urgentes — sugeriu o Sr. Moreno, balançando a sua mão para afastar a fumaça que se aproximava do seu rosto. — O incêndio na cozinha está quase saindo do controle e acho que é o momento para comprarmos alguns extintores.
— Extintores? São equipamentos caros e podem nem adiantar — disse o Sr. Li.
— Precisamos dos extintores, mas a prioridade é investirmos em um sistema de segurança — emendou o Sr. Müller, fazendo com que outros participantes, sobretudo os senhores Li e Smirnov, soltassem gritos de concordância.
O Sr. Jessen protestou, tentando convencer a todos de que a compra de extintores deveria ter prioridade, mas foi prontamente combatido pelo Sr. Moreno, que o acusou de alimentar o fogo.
— Eu estava tentando apagá-lo! — defendeu-se.
— Você estava tentando colocar a sua comida em um local seguro, mas empurrou a nossa para perto das chamas.
Indignado, o Sr. Jessen tentou desviar o foco das discussões para as falhas de outros moradores, estes também sabidamente negligentes.
O argumento, que estava nas vias de se transformar em uma briga aberta — sobretudo após o Sr. Mohammadi impedir, com as suas pernas, o acesso do Sr. Smith à bandeja contendo alguns petiscos —, somente foi apaziguado com a promessa dos senhores Smith, Smirnov e Li de emprestarem uma razoável quantia para que todos os moradores — mesmo os que não tivessem condições de arcar com as despesas — pudessem adquirir novos equipamentos de segurança.
Pareciam todos contentes com as soluções encontradas quando começaram a ver as chamas se aproximarem da porta da sala.
— E o que faremos em relação ao incêndio? — perguntou o Sr. Moreno.
— Vamos deixar esse assunto para os futuros moradores.
Ninguém discordou.


Politicamente exato.
Metáfora bem interessante!