Assim que os dois tarros foram fixados à cangalha pelo Seu Ébrio, ele apanhou um gancho, fixou-o na focinheira do Capitão e o liberou para seguir viagem. O dono sabia que o animal já tinha anos de experiência na tarefa a ser cumprida e concluiu — visto a sua ressaca que o impedia de trabalhar — que o burrinho conseguiria efetuá-la sozinho.
O animal, percebendo estar desimpedido, desceu o morro, seguindo pela estrada que começava — ou finalizava, dependendo da direção — na sede e ia até a cancela que dividia duas mangas nas quais o gado pastava. O portão, equipado com um trinco que podia ser destravado com um simples movimento vertical, foi facilmente operado pelo Capitão e seu gancho que, com um desleixado movimento, liberou o acesso.
Seu Ébrio, que vigiava o seu enviado no topo de uma cerca, comemorou ao ver que o seu plano deu certo, o que significava que ele teria tempo para se deitar e se recuperar. Foi direto para a sede e deitou-se na cama do seu quarto logo após fechar a porta e as janelas. Ele calculou que o burrinho precisaria de cerca de quatro horas para finalizar a sua tarefa e, caso tudo desse certo, ele poderia, inclusive, repeti-la no dia seguinte.
Estava quase caindo no sono quando foi acordado por um alto barulho vindo de dentro da sua casa. Saiu da cama rapidamente para identificar a sua fonte, mas, ao tentar abrir a porta, notou que ela estava trancada. Preocupado, tentou olhar pelo buraco da fechadura, mas não enxergou nada. Fez força mais algumas vezes e, ao ver seus esforços falharem, concluiu que não haveria saída.
Foi até uma das janelas do quarto, a destrancou e, ao abri-la, deparou-se com uma caótica consequência da sua ideia: as cancelas usadas para a passagem do burrinho foram deixadas abertas e o gado, que deveria permanecer em outra manga, veio em direção à sede.
Como essa vinda não estava planejada, não havia nenhum impedimento ao ingresso dos animais no curral, no piquete, no terreiro ou até mesmo na casa. A invasão assustou as galinhas, as cabras e os porcos que descansavam por ali, fazendo com que vários deles se libertassem, contribuindo para a confusão.
Seu Ébrio estava desesperado. Não sabia o que poderia fazer, sobretudo estando ali, trancado no seu quarto, impossibilitado de agir. A sua única esperança era o regresso do seu burrinho, que poderia voltar a fechar as cancelas e libertá-lo do seu cativeiro. Olhou as horas e viu que ainda faltava um considerável tempo para a finalização da tarefa dada, mas, como não havia o que fazer, sentou-se e esperou.
A demora foi massacrante, sobretudo por ver tudo o que se passava na sua fazenda. Ele identificou danos no curral onde eram mantidos os bezerros, a perda de parte dos grãos e da ração guardada devido a um dano hidráulico, a invasão e destruição da despensa onde eram guardadas as vacinas e o consumo pelo fogo de parte do pomar. Apenas ao atestar que o tempo de espera estava no fim foi que o Seu Ébrio pôde respirar aliviado. Tentou avistar a cancela pela janela e, de fato, lá estava o Capitão, subindo a estrada que finalizava — ou começava, dependendo da direção — na sede.
Teve dúvida, porém, se o burrinho seria capaz de entender o problema e ajudar com uma solução. Ao observá-lo chegando até o colcho e parando, percebeu que o animal não sabia o que fazer. Somente após gritar algumas instruções de como abrir a porta foi que o Seu Ébrio percebeu que ele poderia saltar a janela e se libertar.
Ao fazê-lo, correu até o burrinho e o prendeu para que pudesse retirar os tarros, supostamente vazios, da cangalha. Ao tocá-los, percebeu que ambos ainda estavam completamente cheios de leite, o que o motivou a repreender o animal pelos erros e pela falta em cumprir a tarefa — dizendo, porém, que esperava que algo desse tipo fosse acontecer. Ao retirar o gancho da sua focinheira, observou o caos à sua volta e disse:
— Talvez amanhã você consiga fazer melhor.


Quantas vezes eu precisei de um burrinho desse nas ressacas 🤣
genial!