— Aí ele acordou aos gritos. Ouviu a pergunta: “teve um pesadelo?” “Sim.” “Isso sempre acontece quando você come muito antes de dormir” — disse Samuel, esperando uma reação da sua plateia. — Disse que ia voltar a dormir e quando fechou os olhos, lembrou que morava sozinho!
— Porra! Invadiram a casa dele? — perguntou Henrique, quase gritando.
— Que invadiram o que, pô! Era um fantasma! — rebateu Haroldo, batendo com as costas da mão no ombro do amigo.
Os três continuaram com a discussão para decidir se a história era de assombração, alucinação, ou crime. Três garrafas de cerveja e uma porção de mandioca frita serviram de combustível para os argumentos, mas, infelizmente, não se chegou a um consenso.
— Onde você ouviu essa história?
— Lelo me contou — revelou Samuel.
— Então era sobre assombração. As histórias dele são sempre sobre assombração — completou Haroldo, enquanto virava o restante da cerveja do seu copo boca adentro.
Ele queria ficar mais tempo, mas ouviu de Samuel que a próxima seria a saideira, pois precisava ir para casa para descansar. Tentou convencer Henrique a ficar, mas foi voto vencido. A conta seria fechada.
Saiu do bar trocando as pernas e se despediu dos seus amigos já na primeira esquina. Os dois pegariam a mesma condução.
— Tem certeza que consegue ir sozinho? — perguntou Samuel pouco antes de entrar no ônibus.
Não teve tempo de gritar a resposta. Assistiu ao coletivo se distanciar e deixá-lo sozinho na rua escura.
— Duas da manhã — disse, tentando ler as horas no seu relógio de pulso.
Não havia como ele pegar transporte público para ir para casa. Os ônibus iam todos para uma outra direção. Precisaria ir até o centro e pegar outra linha que parava na sua esquina. E isso se os dois ônibus passassem. Duas da manhã. Talvez precisasse esperar até as seis. Estava fora de cogitação. Iria a pé.
Fez uma estimativa e concluiu que se desse a volta no cemitério, poderia chegar em casa em uma hora. Qualquer outro caminho seria mais longo.
E foi em direção ao portão do local.
— Cemitério Boa Viagem — leu, em voz alta.
Pela grade podia ver, de longe, a sua rua, do outro lado do cemitério.
— Nem é tão longe, o problema é ter que dar a volta — resumiu, começando o seu lento e irregular caminhar.
Foram dois cansativos minutos até ele ver um buraco na cerca.
A princípio, passou sem pensar pela grande fenda, mas, ao tropeçar na raiz de uma árvore e quase cair no chão, viu que estava mais bêbado do que julgara. Olhou para o buraco e para o longo caminho que teria que seguir para dar a volta.
— Por que não? — disse, ao decidir.
Cruzou o buraco com a certeza de que estaria tomando banho em menos de vinte minutos.
Chegou a sentir o calor da água.
Enquanto caminhava por entre as lápides, lembrou-se da história contada pelo Lelo e propagada pelo Samuel.
— Era assombração, com certeza.
Brincou com a ideia de que a mulher que conversou com o homem tendo um pesadelo saíra dali, daquele cemitério. Talvez daquela tumba de mármore cheia de flores murchas.
Ainda bem que não acreditava em fantasmas.
Talvez quando criança, mas agora, adulto, não, com certeza não.
Mesmo em uma noite escura dessas, sem lua.
E sem postes.
Perto da rua ainda tinha alguma iluminação, mas ali, no meio do cemitério…
Via as luzes da sua rua, no fundo, e sabia para onde ir, mas não conseguia distinguir o que estava perto de si. Pisava em plantas de vez em quando. Seriam as flores depositadas nos túmulos?
Tropeçava diversas vezes.
Não sabia se deveria andar mais lentamente, com mais cuidado, ou mais rápido, para sair dali logo.
Não que estivesse com medo.
Não. Claro que não.
Estava apenas em um local escuro. Isso. Por isso queria sair dali. Não tinha nada a ver com as almas que o vigiavam.
Isso se acreditasse em fantasmas. Mas não era o caso.
Estava correndo apenas porque queria chegar em casa. Era para poder tomar banho logo.
E não achou o chão.
Dançou pelo ar e mergulhou na escuridão.
Sentiu o chão no peito, nos braços e nos joelhos.
Como doía.
O que aconteceu?
Estava deitado. Virou-se e ficou de barriga para cima.
Viu o retângulo escuro no céu levemente mais claro.
Caíra numa cova aberta.
— Caralho.
Sentou-se e limpou a terra que certamente sujava a sua roupa.
Levantou-se com dificuldades, usando a parede da cova como apoio.
Sentia o cheiro de terra molhada.
Pulou para alcançar a beira, mas o buraco era muito profundo — ou estava muito bêbado para pular alto.
Tentou cravar as mãos na terra e escalar o paredão, mas deslizava pelos torrões que se desmanchavam.
Encostou suas costas em um lado e tentou pressionar os seus pés do outro para subir, mas seus pés se enfiavam na lama.
Estava preso.
Por que não pegara o ônibus?
Agora teria que esperar a merda do cemitério abrir para ser resgatado.
Gritou por socorro, mas para quem? Estava sozinho.
Seu estômago revirava.
Iria vomitar?
Tomara que não. Imagina ser puxado pelo corpo de bombeiros fedendo a vômito? Viraria matéria do jornal local.
Que humilhação.
No desespero, tentou novamente pular, enquanto gritava. Vai que algum vizinho o escutasse? Estava chorando? Era pânico, medo, cansaço? Suas forças se exauriam a cada tentativa frustrada. A cada deslizamento.
Foi quando ouviu:
— Não adianta, já tentei de tudo.


Muito bom!!!