Parte 2: Da coerência dos incoerentes
– Sr. Gomes, eu preciso relembrá-lo que mentir em uma CPI é crime e pode acarretar prisão em flagrante?
– Questão de ordem, senhor presidente!
– Com a palavra o advogado da testemunha, dr. Assis.
– O senhor presidente foi cirúrgico em me apresentar. Sou o advogado da testemunha. Testemunha. O meu cliente, o sr. Gomes está aqui na condição de testemunha e está colaborando com a comissão. O excelentíssimo deputado sr. Silva está afrontando-o de forma desnecessária e que beira à intimidação!
– Questão de ordem, senhor presidente!
– Sim, deputado Silva.
– O doutor advogado macula a imagem desta casa ao sugerir que um parlamentar esteja intimidando um convidado da comissão. Peço que ele seja obrigado a se retratar!
– Como presidente da comissão eu indefiro o pedido e peço encarecidamente que o caro colega seja menos hostil com a testemunha. Tente reformular a pergunta para que o questionamento seja entendido.
– Tudo bem, senhor presidente. Sr. Gomes, eu fiz uma pergunta simples ao senhor. Pergunta esta que pode ser respondida objetivamente com um “sim” ou “não”. Senhor presidente, peço que o senhor discipline a testemunha e o seu advogado. Enquanto eu o faço sérios questionamentos os dois ficam de conversa paralela.
– Senhor presidente, eu apenas estou instruindo o meu cliente!
– Dr. Assis, peço encarecidamente que o senhor não faça comentários sem pedir a palavra. Estamos em uma comissão parlamentar de inquérito e não em um bate-papo em um bar.
– Desculpe, senhor presidente.
– E quanto à vossa excelência sr. Silva: o advogado da testemunha pode sim instruir o seu cliente quando bem entender. Peço então que refaça a pergunta ou siga em frente.
– Tudo bem, senhor presidente. Sr. Gomes, o senhor está ciente que a nossa amada nação está em guerra?
– Sim, senhor deputado.
– O senhor está ciente de que neste momento delicado temos que ter responsabilidade pelo que declaramos?
– Sim, senhor deputado.
– O senhor está ciente que existem espiões inimigos por todos os lados, nos vigiando e procurando as nossas fraquezas?
– Questão de ordem, senhor presidente. Isto é uma especulação.
– Indeferido. Vou permitir a linha de interrogação. Pode continuar caro senhor deputado.
– Obrigado, senhor presidente. Então, senhor Gomes, é sabido que estamos sendo vigiados. Tudo que falamos, tudo que declaramos, tudo! Tudo está sendo monitorado pelo inimigo para que nossas fraquezas sejam identificadas e exploradas. Fraquezas como a desunião, a oposição ao governo e a desinformação. E neste cenário temos um grupo de indivíduos que estão a lançar dúvidas quanto à honestidade e idoneidade do nosso chefe de governo, o excelentíssimo senhor presidente da república. Este grupo veio à público dizer que o nosso chefe do executivo, o nosso condutor nestes tempos tempestuosos, estava equivocado ou agindo de má-fé! O senhor, senhor Gomes, faz parte deste grupo.
– Não, senhor deputado.
– Não? O senhor não é cientista?
– Sim, senhor deputado.
– Então o senhor faz parte do grupo.
– O senhor se refere à carta aberta escrita por vários cientistas. Eu não fiz parte do grupo que a escreveu.
– Você concorda com o seu conteúdo. Senhor presidente, conversa paralela novamente!
– A testemunha pode receber orientação do seu advogado, sr. Silva. Sr. Gomes, pode responder à pergunta.
– Por orientação do meu advogado, eu vou me abster de responder à pergunta.
– Se o senhor só não responde às perguntas que podem incriminá-lo, então sabemos qual a resposta.
– Questão de ordem, senhor presidente! O senhor deputado está especulando a respeito das respostas do meu cliente, mas ele tem o direito, assegurado pela constituição, de permanecer em silêncio.
– Deputado Silva, peço que se abstenha de fazer comentários especulativos.
– Tudo bem, senhor presidente. Sr. Gomes, o senhor leu a carta em questão?
– Sim, senhor deputado. Eu a li quando a imprensa a publi...
– Então o senhor sabe do seu conteúdo?
– ...cou. Sim, pela imprensa.
– Quando o senhor leu o texto? Quando lhe foi passado para que fosse assinado? Ou o senhor ajudou a redigi-la?
– Questão de ordem, senhor presidente! O deputado sr. Silva está novamente intimidando o meu cliente, acusando-o de cometer um crime seríssimo!
– Dr. Assis, se o seu cliente não cometeu o crime em questão, então ele não tem o que temer em responder à pergunta. A não ser que ele esteja mentindo.
– Mas senhor presidente, não há provas para esta acusação leviana, que pode inclusive destruir a vida do meu cliente. Cliente este, vale lembrar – novamente –, que está aqui na condição de testemunha e não de acusado!
– Indeferido. A pergunta pode ser feita. Sr. Gomes, responda às questões.
– Senhor presidente, eu, como advogado, instruo o meu cliente a não responder as perguntas feitas.
– Pois bem, se o senhor quiser jogar este jogo, nós podemos então encerrar a sessão agora e convocar o seu cliente novamente na condição de acusado.
– Senhor presidente, os dois estão novamente de conversa paralela!
– Senhor Silva, eles têm esta prorrogativa!
– Eu responderei às questões.
– Sr. Gomes, eu não passei a palavra ao senhor. Exijo respeito à comissão! Tudo bem, agora, passo-lhe a palavra.
– Obrigado, senhor presidente. Como dito, eu posso responder as questões. Eu li o texto apenas quando foi publicado pela imprensa. Ele não me foi passado para que fosse por mim assinado e eu não auxiliei na sua redação.
– Posso continuar com as minhas perguntas, senhor presidente?
– Vá em frente, senhor deputado Silva.
– Obrigado, senhor presidente. Sr. Gomes, o senhor concorda com o conteúdo da carta?
– Eu... Não, tudo bem, eu posso responder. Eu sei... Vou responder. Senhor deputado, eu concordo em parte com o conteúdo da carta.
– Concorda com o conteúdo da carta! Estamos aqui frente a um traidor da pátria que acaba se assumir seu crime! Peço que o inclua na lista de acusados desta comissão, senhor presidente!
– Questão de ordem, senhor presidente! Meu cliente disse que concorda em partes. O senhor deputado Silva não sabe qual parte ele concorda e apenas está fazendo acusações levianas de traição!
– Acredito que não precisamos ouvir mais e peço que a comissão vote para decidir se a testemunha deve ser incluída na lista de acusados.
– Questão de ordem, senhor presidente! Peço que meu cliente tenha a oportunidade de se explicar antes de uma votação tão importante! A constituição garante que ele tenha amplo direito à defesa!
– Eu vou permitir, apesar de achar o ato inútil.
– Questão de ordem, senhor presidente! O seu comentário cerceia a capacidade de defesa do meu cliente!
– Indeferido. O seu cliente tem a possibilidade de se defender. Passo a palavra a ele.
– Bem, na carta havia a menção de que o fenômeno em questão poderia ter várias explicações meteorológicas que não deveriam ser descartadas de forma brusca. Concordo com esta visão, mas apenas baseando-se nas informações que eu li na imprensa. Não sei o que foi omitido por parte do estado, pois...
– Questão de ordem, senhor presidente! O acusado está insinuando que o governo está deliberadamente escondendo informações do público!
– Questão de ordem, senhor presidente! O meu cliente não é acusado. Ele está aqui na condição de testemunha!
– Silêncio! Ambas as partes! Senhor deputado Silva, o doutor advogado está certo. O convidado é testemunha por enquanto. Mas concordo com vossa excelência. A testemunha está sendo leviana em tais afirmações!
– Senhor presidente, eu...
– Eu não lhe passei a palavra, senhor Gomes.
– Desculpe, vossa excelência.
– Tudo bem, o senhor tem a palavra.
– Eu não estou sendo leviano nem acusando o governo de nada. O próprio senhor deputado Silva afirmou que estamos sendo vigiados e para mim seria normal que a verdadeira explicação para o fenômeno em questão já seja de conhecimento do governo, mas que por questões de segurança nacional não foram divulgadas.
– Questão de ordem, senhor presidente! O acusado acaba de cometer um ato falho e deixou à mostra que ele de fato está à serviço do inimigo! Senão como ele saberia que estamos sendo vigiados?
– Questão de ordem senhor presidente! Meu cliente apenas repetiu o que o senhor deputado Silva tinha dito!
– Senhor Gomes, peço que o senhor se restrinja a responder perguntas e não a especular quanto à dimensão das informações as quais estão de posse pelo governo.
– Eu apenas es…
– Senhor Gomes, eu não lhe passei a palavra!
– Desculpe, senhor presidente.
– Há alguém mais que deseje fazer questionamentos à testemunha?
– Senhor presidente? Eu gostaria!
– Deputado Mendes, pode prosseguir.
– Obrigado, senhor presidente. Senhor Gomes, eu fiquei curioso. O senhor disse que poderia haver explicações para o fenômeno. Quais seriam estas explicações?
– Bem, baseando-se no que eu li na imprensa e somente isto, eu diria que poderia ser um fenômeno meteorológico que se dá devido à interferência do campo eletromagnético da terra em conjunto com condições específicas de temperatura, umidade e pressão.
– Então o senhor está negando o que foi afirmado pelo governo?
– De forma alguma. Como eu disse anteriormente, o governo pode muito bem estar omitindo maiores informações por questões de segurança nacional. Informações que poderiam dar sustentação à nota do governo.
– Dar sustentação à nota do governo? O senhor não acredita no que foi declarado?
– Eu oriento o meu cliente a não responder à pergunta.
– É uma pergunta simples, doutor Assis.
– Porém irrelevante. Não importa qual crença o meu cliente tem. O que está em foco aqui nesta comissão é sobre fatos. Fatos estes que ele não pode sustentar, como cientista, sem as devidas provas materiais.
– Então o senhor põe a credibilidade do presidente da república em questão?
– Se eu permitisse que ele respondesse à pergunta eu iria pôr o sistema judicial em questão. Um juiz não sentenciaria sem considerar as provas materiais. Por que seria diferente neste caso?
– Tudo bem, doutor Assis. Eu retiro a minha pergunta. Senhor Gomes, na carta em questão há um provérbio científico que diz: “nunca são alienígenas, até que são”. O senhor é familiar a esta frase?
– Sim, senhor deputado.
– O que ela significa?
– Não que se aplique a este caso, mas ela significa que existem vários fenômenos os quais nós não conseguimos, com os nossos atuais níveis de conhecimento científico, explicar. Vários destes parecem ser de origem extraterrestre. Porém, em várias ocasiões, o que se viu, principalmente nos casos em que uma aparente explicação não terrena poderia parecer mais óbvia, foi que havia sim uma elucidação sem o envolvimento de civilizações alienígenas. Daí a frase: nunca são alienígenas.
– E a parte “até que são”.
– Acredito que seja referente ao fato de que um dia pode ser que algum fenômeno seja realmente devido a alienígenas.
– Senhor Gomes, peço que pegue o papel que está em frente ao senhor e leia, em voz alta, o que está escrito.
– Tudo bem. “Comunicado (...)
Parte 1: Da necessidade perenal dos cínicos
COMUNICADO OFICIAL
1. O Excelentíssimo Senhor Presidente da República, servindo de suas atribuições como chefe do poder executivo e chefe de estado desta nação recebeu, no Palácio do Governo, o embaixador especial do governo ditatorial unido de Vênus no dia 28 deste mês. O Excelentíssimo Senhor Presidente e o Excelentíssimo Senhor Embaixador decidiram iniciar os trâmites para o estabelecimento de relações diplomáticas entre as duas partes.
2. O Excelentíssimo Senhor Presidente da República e o Excelentíssimo Senhor Embaixador firmaram um acordo de defesa mútua entre as duas partes.
3. O Excelentíssimo Senhor Embaixador confirmou o compromisso do seu governo em não estabelecer relações bilaterais diplomáticas e não fazer acordos de defesa semelhantes sem antes conseguir o aval do Excelentíssimo Senhor Presidente da República, especialmente no tangente a nações não amigas.
4. O Excelentíssimo Senhor Embaixador requereu às autoridades competentes que não haja mudanças no corpo governamental desta nação até que os trâmites legais do estabelecimento das relações diplomáticas e do acordo de defesa sejam finalizados, pedido este não visando a interferência externa, mas simplesmente como cortesia para com os costumes daquele povo.
5. O Excelentíssimo Senhor Presidente da República se comprometeu a acatar o pedido e enviou ao Excelentíssimo Senhor Presidente do Senado, de imediato, o requerimento para o estabelecimento de um estado de sítio no país, sendo esta a única forma constitucional de cumprir o requerimento.
6. O Excelentíssimo Senhor Presidente da República se comprometeu a extinguir o estado de sítio o mais rápido possível.
7. O Excelentíssimo Senhor Presidente da República criou a Secretaria Especial de Comunicação para Vênus, encarregada de fazer toda a comunicação especial para e desde aquele aliado.
8. O Excelentíssimo Senhor Embaixador confirmou que as luzes vistas sobre o céu da capital federal no último dia 20 foram de fato devido à aterrisagem da sua aeronave e não há motivos para que os habitantes da cidade e do país se preocupem com o fato.
9. O Excelentíssimo Senhor Presidente da República e o Excelentíssimo Senhor Embaixador lançaram um programa de cooperação socioambiental e de combate à pobreza entre as duas partes.
(de volta à)
Parte 2: Da coerência dos incoerentes
– (...) entre as duas partes.”
– Pois bem, senhor Gomes. Este comunicado está claro como água. Não só ele atesta da existência de vida extraterrestre como também comprova que existe vida inteligente e desenvolvida em outro planeta. Para completar, fica explicitado que os visitantes não só deram explanações sólidas quanto aos chamados abre aspas fenômenos meteorológicos fecha aspas, – ao contrário da chamada comunidade científica a qual o senhor faz parte, que não conseguiu explicar o acontecido –, como também fez o papel desta própria comunidade científica, que é de tranquilizar a população com explicações confortante acerca do universo. O que temos não é a procura pela verdade, como disse os autores da carta, mas a busca para manter os dispendiosos financiamentos estatais das suas ditas “pesquisas”, motivo pelo qual nunca se é descoberto nada! Nada, senhor presidente da comissão! Nada, senhores deputados! Quantos milhões temos que desviar do orçamento para esta área que nada dá de retorno à sociedade? Nada, além de comunicados ultrajantes que colocam o nosso governo em uma situação vexaminosa para como as nações amigas e pior ainda, nos ridiculariza perante as nações hostis. Nada, além de espalhar desinformação em tempos tão frágeis, como se o abre aspas fenômeno meteorológico fecha aspas já não tivesse sido explicado pelo próprio governo com a publicação do comunicado. Explicação esta, inclusive, muito mais concreta do que as dadas pelos nossos abre aspas cientistas fecha aspas. Agora, senhor Gomes, eu lhe pergunto: “até que são”?
– Senhor Deputado, não cabe a mim...
– O senhor está aqui exatamente para isto: para prestar esclarecimentos acerca dos ditos fenômenos, mesmo tendo estes já sido devidamente clarificados!
– Senhor deputado, eu vim aqui como testemunha porque eu sou colega de um dos autores da carta. Eu nada tenho a ver com esta.
– O senhor está se furtando de responder às perguntas feitas.
– Qual seria a pergunta feita?
– Dada toda esta sólida evidência, o senhor agora acredita na segunda parte do provérbio em questão?
– Questão de ordem senhor presidente! Estamos dando voltas aqui! Meu cliente não está aqui para emitir opiniões pessoais acerca de quaisquer temas!
– Vou permitir a pergunta. Estamos aqui, acima de tudo, para se chegar à verdade. E para alcançá-la precisamos ser flexíveis quanto aos procedimentos formais. Senhor Gomes, favor responder à pergunta.
– Eu não acredito na segunda parte do provérbio com todas as informações que eu tenho em mãos no momento.
– Silêncio! Todos, silêncio!
– Questão de ordem, senhor presidente! Por tudo que ouvimos aqui, sugiro que façamos desde já a votação para que a testemunha seja incluída como réu no processo!
– Questão de ordem, senhor presidente! Isto é ridículo! Meu cliente apenas disse uma opinião pessoal!
– Doutor Assis, eu recomendo que o senhor seja respeitoso com esta casa, senão sairá daqui algemando. Quanto ao pedido, eu o acato. Faremos a votação para que o senhor Gomes seja incluído como réu no processo, visto as suas declarações e as graves e fartas provas que pesam contra ele em relação a crimes hediondos como traição e perturbação da ordem pública.
– Questão de ordem, senhor presidente!
– Sim, senhor vice-presidente?
– Acabo de ver na imprensa estrangeira que um satélite espião do nosso maior aliado flagrou o fenômeno em questão. Era um fenômeno meteorológico raro, mas completamente explicado e conhecido.
– Eles perguntaram ao Excelentíssimo Senhor Presidente a respeito?
– Sim, ele disse que esperará uma resposta de Vênus. Enquanto isso o estado de sítio continua.
– Pois bem, comecemos a votação.

