— Não sei, de vez em quando parece que ele está ficando mais infantil — desabafou Raimundo, enquanto observava as crianças brincarem no parquinho.
— Por quê? O que ele fez? — perguntou Pedro, sem prestar muita atenção em seu filho, que brincava.
— Um dia desses ele deu um chilique porque não lhe deram o que queria.
— Isso é bem normal.
— Bom, depende do ambiente, não é? Isso seria de se esperar no jardim de infância ou num parquinho como este, mas não onde ele estava.
— É, tem razão.
— Isso sem contar os apelidos.
— Quais apelidos?
— Ele dá apelidos para todo mundo de quem não gosta. E se alguém chama a atenção dele ou o critica, ele xinga de volta. E não importa quem.
— Xinga de volta? Para todo mundo ouvir?
— É, você não viu o jantar? Saiu xingando todo mundo. Até mostrou o dedo do meio.
— Não vi isso! — disse Pedro, de olhos arregalados e mão na boca.
— Se fosse filho meu, eu ficaria com vergonha. Parece que não deram uma criação adequada.
— Você acha que é culpa dos pais?
— E de quem mais?
— Sei lá, ambiente?
— Ambiente? Você acha que ele está copiando o comportamento de alguém? É justamente ele que incentiva todos os seus amiguinhos a agirem da mesma forma.
— Tem mais gente fazendo esse tipo de coisa?
— Claro que tem! E não aparece ninguém para chamar a atenção.
— Mas quem poderia fazer isso? Você? Não é seu papel fazê-lo.
— Eu sei que não. E, mesmo se eu pudesse, até parece que seria ouvido. Não sou ninguém para ele.
— Exatamente. O melhor é ficar na sua.
— Eu sei, mas isso me deixa irritado. E ele é um cara de pau.
— Cara de pau? Raimundo, não o ataque assim.
— Como não? Sejamos realistas: ele é cara de pau sim. Ele xinga alguém e, dois minutos depois, tá se fazendo de amiguinho, como se nada tivesse acontecido.
— É, isso eu sei. E nem pede desculpas, não é mesmo?
— Exatamente. Isso está cada vez mais comum.
— Pelo menos é mais sincero, você não acha?
— Sincero?
— Sim. Todos sabem o que eles sentem.
— Eles mentem descaradamente e todo mundo sabe disso — emendou Raimundo, ao ver seu filho se aproximar.
O menino estava cansado e queria ir embora. Os dois pais organizaram suas coisas e Pedro chamou o filho, ainda brincando no balanço.
Sem saber se deveria continuar a conversa com o seu filho tão perto, Raimundo tentou mudar de assunto enquanto iam embora. Vai que o menino repetisse o que ouviu para quem não deveria — um amigo, um pai, um professor.
Via, no entanto, a expressão despreocupada de Pedro. Era como se ele não se importasse com o que haviam conversado. Mas sabia que o vizinho era meio avoado. Nunca prestava atenção ao que acontecia à sua volta. Era super desinteressado em tudo que não fosse engenharia: criação dos filhos, rotina diária, manutenção do lar, política, saúde, enfim, tudo.
Chegou em casa, fez o jantar, comeu, deu banho no menino e o colocou para dormir.
Enquanto assistia à televisão, ouviu sua esposa chegando de carro e foi recebê-la.
O dia tinha sido estressante: uma cirurgia complicada, más notícias para dar a familiares. Ela queria apenas beber um vinho enquanto comia. Precisava relaxar.
— Como foi o dia do Juninho? — perguntou, enquanto comia a comida requentada.
Descreveu os acontecimentos para a esposa, com elevado grau de detalhe — sobretudo as partes mais agradáveis para o menino.
— Agora à tarde fomos ao parquinho. Ele brincou com o filho do Pedro lá.
Emendou que conversou um longo tempo com o pai da criança e, no fim, contou sobre a assunto que tiveram.
— Acho que mesmo depois de tudo que conversamos, ele ainda vai votar naquele homem.

