O telefone tocava insistentemente. Era a terceira vez que tentavam ligar para Enzo e ele se recusava a atender. Sentado na espreguiçadeira de sua casa, ele tomava um copo de cachaça e virava as páginas de um álbum de fotografias de sua infância, enquanto relembrava os bons momentos que passara com o seu falecido amigo, Theodósio.
“As plantas já devem estar todas mortas” pensou, enquanto virava mais um copo.
Ele fora designado pelo camarada como fiel cuidador do seu apartamento enquanto fazia uma longa viagem. Deveria visitá-lo, dia sim dia não, para regar todas as suas plantas e ver se estava tudo em ordem. Tarefa abandonada após cinco dias devido ao luto.
— Pelo menos tive a chance de dizer adeus — disse, relembrando o longo abraço no aeroporto.
A notícia correra o país. Uma tragédia. Não encontraram sequer os restos mortais. Como se tivesse evaporado.
Enzo temia nunca saber do verdadeiro fim do amigo. Esperava apenas que os últimos momentos não tivessem sido doloridos.
— Plantas não sentem dor — disse, justificando a sentença executada às samambaias do defunto. Não fazia diferença se eles definhassem, de pouco a pouco, sedentas.
Imaginou seu apartamento decorado, verde. E se as tivesse pegado como herança? Para celebrar a paixão do amigo que fora. Uma homenagem. Já seria tarde?
Sentiu seu rosto queimar. Fizera besteira?
Colocou o copo de lado, o álbum. Fez as contas. Vinte e cinco dias. Talvez alguma ainda estivesse viva. Eram tantas. O amigo era praticamente viciado em natureza. Razão pela qual fizera a viagem. Trilha na selva. Mata fechada. Quem teria tido essa ideia? Animais selvagens, febre amarela, malária, fome, sede, desorientação, sequestro, arrebatamento. A lista era imensa. Milagre seria se ele voltasse com vida, isso sim.
Levantou-se, vestiu uma calça, uma camisa. Calçou os sapatos. Os cactos, pelo menos. Estes viveriam. Pegou uma sacola de pano, depois resolveu levar uma caixa. Os espinhos poderiam furar o tecido.
O telefone voltava a tocar.
Ele estava decidido a sair sem atender. Resgataria as plantas e, para isso, veria algumas pessoas na rua. Seria o maior contato social que gostaria de ter. Não queria conversar com ninguém. Estava muito cedo. Perdera o irmão. Sim, o irmão. Afinal, uma amizade não poderia definir aquele relacionamento.
Insistiam.
E se fossem notícias do desaparecido? Talvez tenham encontrado o corpo e precisavam de alguém para reconhecê-lo? Um funeral apropriado também precisava ser organizado. Caberia a ele esta obrigação. Não, honra. Seria uma honra.
— Alô? — disse, ao apanhar o aparelho.
— Enzo?
— Sim, quem fala?
— Como assim quem fala, é o Theodósio, pô! Estou tentando falar com você há dias.
— Mas você está morto.
— Todo mundo está falando que eu morri. Eu estava viajando, caralho. Onde você ouviu essa história?
— Todos estamos sabendo. Apareceu até na televisão.
— Na televisão? Por quê?
— Porque foi algo muito trágico. A busca durou dias, usaram helicóptero, cães farejadores. Só encontraram algumas roupas suas.
— Mas todos sabiam que eu iria ficar incomunicável. Por que não esperaram para me procurar depois do dia que eu tinha planejado voltar?
— Você poderia ter se machucado, ter morrido sofrendo. Consideraram ter sido vítima de um ataque de animais selvagens.
— Acho que faz sentido, mas acho alguns um exagero.
— Por quê?
— Porque tenho experiência. Sempre soube me virar.
— Talvez os responsáveis pelas buscas não quisessem dar chance ao azar.
— É, acho que faz sentido.
— Desculpa por ter perdido o seu funeral.
— Você perdeu meu funeral?
— É, eu estava muito abatido. Não consegui me levantar da cama.
— Quem o organizou?
— Seu tio. Queria poder dizer que foi lindo, mas não conversei com ninguém a respeito. Aliás, não tenho conversado com ninguém desde que eu soube da sua morte.
— Imaginei que você que organizaria meu funeral.
— Por quê? Você planejava a sua morte?
— Não, mas você sempre foi a pessoa mais próxima a mim.
— Exatamente por isso não consegui fazê-lo.
— É, eu entendo. Não que tenha feito diferença.
— É. Funerais são boas homenagens, mas os homenageados não estão lá pra apreciá-las.
— Exatamente. E as minhas plantas?
— Eu estava indo ao seu apartamento agora. Não tive cabeça para mexer com isso nesses últimos dias.
— Você não tem ido lá?
— Não.
— Poxa. O bonsai deve ter morrido.
— Talvez os cactos tenham sobrevivido.
— É, esses com certeza sobreviveram.
— Estava pensando em trazê-los para cá.
— E o resto?
— Ia deixar lá, morrendo.
— Bom que eu te liguei agora, então. Agora posso te convencer a tomar conta das sobreviventes e se livrar dos cadáveres das vítimas.
— Por que eu faria isso?
— Porque te pedi.
— Mas ainda estou de luto. Não quero ter que lidar com isso.
— Ainda de luto? Como assim, ainda de luto? Estou conversando com você.
— E daí? Isso não muda os fatos.
— Você ainda acredita que eu morri?
— Claro. Vi na televisão.
— E espíritos usam telefone, agora?
— Parece que sim. Confesso que estou intrigado com isso.
— Não é mais fácil acreditar que a televisão estava errada?
— E o funeral?
— E como foi o meu funeral? Caixão vazio?
— Acho que sim.
— E então?
— E quantas pessoas você já convenceu que está vivo?
— Bem, você é a primeira com quem consigo conversar.
— Vê?
— Mas isso não significa que eu morri.
— Ou talvez você simplesmente não saiba que morreu.
— Acho que eu saberia.
— Você não sabe dizer como foi? Isso está me incomodando. Não queria que você tivesse ido sofrendo.
— Não. Nada aconteceu.
— Tem certeza?
— Claro que tenho.
— Uma febre, um susto? — perguntou Enzo, convidando um silêncio à conversa. — Nada?
— Bem, talvez uma coisa ou outra, sim. Há sempre riscos em uma trilha como a que eu fiz, mas não acredito que tenha acontecido nada de grave.
— E se você não tiver visto acontecer?
Mais uma pausa.
— Será? — perguntou Theodósio, com a voz fraca.
— Provavelmente.
— E agora?
— Agora o quê?
— O que eu faço?
— Não sei. Não tenho experiências nesse campo.
— Eu também não.
— Tenta esfriar a cabeça. Me liga quando quiser para conversarmos. Enquanto isso, tenho que ir buscar os cactos. Estou preocupado.
— Tudo bem. Vê se o bonsai está vivo ainda.
— Provavelmente, não.
— Mesmo assim.
— Tudo bem. Foi bom conversar com você.
— Igualmente.
— Pena que não pude lhe dar notícias melhores.
— Não é sua culpa — disse Theodósio, despedindo-se.
Quando colocou o telefone no gancho, Enzo perguntou-se se realmente deveria ir até o apartamento do amigo. Talvez pudesse ir quando não tivesse muita gente na rua. Os cactos sobreviveriam mais algumas horas.
Foi quando o telefone voltou a tocar.
Atendeu.
Ouviu do outro lado da linha:
— Ficou sabendo das novas sobre o Theodósio?


Gostei muito, de verdade!
Um plot excelente! Fiquei encucado também. Belíssimo enredo.