— Quando vai assumir o namoro, Carlinhos? — perguntou, em tom de deboche, Filipe, na mesa do bar.
— Não tem nada de namoro, não é nada sério.
— Por que então você fica nesse telefone o tempo todo? — rebateu Renato, fazendo o amigo corar.
Ele olhou em volta, todos o encaravam.
— Só quero ter certeza de que terei sorte hoje — disse, rindo com o canto da boca e colocando o celular em cima da mesa, com a tela para baixo. — Preciso responder rápido, para simular interesse.
— Você fala como se não estivesse apaixonado — provocou Filipe.
Carlos, ainda vermelho, tentou explicar por que encontrava tanto a mulher com quem começara a se relacionar no mês anterior, a Adriana, dando detalhes sórdidos quanto às posições sexuais praticadas — todas originais e ousadas — e garantindo que tudo não passava de algo carnal.
A quantidade de detalhes deu ao relato a veracidade necessária para que os presentes se focassem em outros membros do grupo, alvos mais fáceis de uma brincadeira. A trégua deu ao Carlos a tranquilidade para continuar a responder a Adriana sem ser incomodado.
Escrevia suas mensagens sempre mantendo um semblante de indiferença, mesmo quando sua boca tentava entregá-lo — sobretudo após um convite recebido para uma inesperada visita.
“Achei que você tinha que trabalhar hoje”, respondeu.
“Não quer vir?”
“Claro que quero, estou morrendo de saudades de você”.
“Vem logo, então”.
“É porque estou com os meus amigos. Acabei de chegar aqui”.
“Ah, esquece então”.
Ele sentiu seu rosto queimar.
— Que foi, Carlinhos? Ficou todo sério — perguntou o Filipe, ao ver o semblante de preocupação do amigo.
— Meu irmão tá passando mal. Tenho que levá-lo ao médico — respondeu, chamando a atenção dos outros.
Ele seguiu, dando detalhes da enfermidade do familiar, enquanto calculava quanto precisava pagar para acertar a sua conta. Saiu do lugar sem se despedir direito e correu até o ponto de ônibus. Só pensava em como aquele poderia ser o seu dia de sorte.
Primeira vez sozinho na sua casa, de noite. Tinha que ser hoje.
Depois de tanto tempo tentando, de tantos momentos gastos pensando na amada.
Sim, amada. Ele nunca poderia admitir aos seus amigos — ou a ela —, mas ele a amava. Sabia disso.
Ao vê-la, no entanto, todo o seu pudor evaporou-se. Seu primeiro “eu te amo” foi jogado na cara da amada quando finalmente se deitaram pela primeira vez.
Foi convidado a passar a noite.
Ficou mais um dia. Era sábado, não tinha nada para fazer.
No domingo, perdeu a missa. Deus o perdoaria. Era amor.
Não se importava mais. Que todos soubessem. Iria ligar para o Filipe, para o Renato. Assumiria tudo. Estava feliz. Sabia que passaria a vida inteira com ela, teria filhos, netos, bisnetos.
Na segunda-feira de manhã, pouco depois de acordar, ouviu a resposta da declaração. Era recíproco!
Não queria mais sair dali, ter que trabalhar. Poderia ligar para o chefe, fingir um resfriado, uma intoxicação alimentar. Algo que lhe desse mais alguns momentos com o seu amor, ainda mais agora, correspondido.
Mas era preciso voltar à rotina, à realidade.
Era preciso se despedir.
Quis combinar algo, talvez naquela noite, mas ela estaria ocupada.
Não importava. Logo a veria.
Jurou amor eterno ao se despedir. A porta se fechou, mas seu sorriso permanecia aberto, incontido.
Caminhou pelos corredores praticamente dançando. Não acreditava na sorte que tinha.
Já sentia saudades.
Enquanto isso, ela colocava a aliança no dedo.


Gosto muito dos seus textos. Já começo pensando na surpresa que terei. Sempre sou surpreendido. Muito legal!
Deu dó 😅🫠