O suor que escorria pelo rosto do José o incomodava mais do que a sensação de queimadura que sentia no corpo por estar sob o sol de um quente verão — vestido de preto. A conclusão do discurso do padre — também com roupas escuras —, relembrando a boa índole do falecido, evitando falar na causa da morte e no provável destino da alma do defunto, serviu como pretexto para se aproximar do caixão — colocado sob a sombra de uma árvore — e prestar uma íntima homenagem ao seu irmão, que deixava um filho doente e uma esposa desamparada. Quis prometer-lhe que tomaria conta da sua família, mas só conseguia pensar no calor.
Quando a última pá de terra foi jogada, notou o seu sobrinho ao seu lado, de cabeça baixa e olhos inchados. Sentiu o estômago embrulhar ao imaginar o que estaria por vir na vida daquele menino, tão novo e tão vivido. Pensou na herança e torceu para que ela fosse suficiente para ampará-lo. Colocou seu braço sobre o pequenino ombro e o apertou, como se quisesse dizer a ele que estaria ao seu lado, mesmo sabendo que não poderia ajudá-lo.
Caminharam, abraçados, ao lado da viúva — de preto, suor no rosto e de maquiagem borrada —, até o carro da funerária que lhe dariam carona.
Assim que abriram a porta do veículo, foram abordados por um homem vestido de terno azul-marinho cuja lapela era enfeitada por um pequeno broche de crucifixo:
— Senhora Silva? — perguntou, trajando um sorriso amarelo e se apresentando. — Trabalho na Seguradora Santa Cruz e gostaria de conversar sobre a herança deixada pelo seu marido.
— Não é muito cedo para falar sobre isso? — intrometeu-se José, de cara fechada, ao reconhecer o sujeito.
— A urgência do assunto foi que me trouxe até aqui — explicou-se. — Houve um problema durante um dos procedimentos.
— Qual problema?
— O receptor veio a óbito e o órgão foi perdido.
— Qual órgão? — gritou a mulher, de olhos arregalados.
— O coração — disse o homem, evitando contato visual.
Ela sentiu uma tontura e quase perdeu os sentidos, forçando-se a ficar acordada somente para não abandonar o seu filho naquele momento. José queria perguntar o que aquilo significaria, mas ele sabia a resposta. Não viria pagamento algum de um comprador morto. Era uma sentença de morte. Ele olhou para o seu sobrinho, preocupado com a mãe, sem saber o que acontecia. Sem saber o porquê do pai ter ido tão jovem. Pelo que tudo indicava, em vão.
Dentro do carro, enquanto voltavam para a casa do irmão, ele tentava fazer, na sua cabeça, um inventário dos seus próprios bens para levantar a soma necessária para o tratamento do menino. Sabia que um rim e um pulmão, no entanto, não se equiparavam a um coração. Talvez uma córnea? Fechou um dos olhos e tentou imaginar se conseguiria viver enxergando daquela maneira. Desanimou-se, pois, mesmo assim, a conta não fechava. Ele precisava de um coração.
Tentou animar a cunhada antes de deixá-los, sozinhos, naquela casa vazia, mas sabia que nada a faria rir novamente. Quando chegou em casa, releu a carta de despedida deixada pelo irmão. Não havia um pedido explícito para que ele tomasse conta da viúva e do sobrinho, mas ele sabia que era aquilo que o finado queria. José tentou, mais um vez, fazer a promessa para aquele pedido não feito, mas temia se comprometer mais do que ele conseguiria cumprir. Lembrou-se da primeira vez em que viu o menino. Lembrou-se do seu diagnóstico. Chorou ao imaginar as dores que viriam, as lágrimas. Não queria passar por aquilo de novo.
Às duas da manhã, encorajou-se.
Com a carta em mãos, gritou:
— Eu prometo.
E dormiu.
No dia seguinte, acordou decidido. Pegou sua caixa de ferramentas, uma caixa isotérmica e saiu de casa. Sabia o endereço. Fora dado diversas vezes ao seu irmão, antes da eutanásia. “Visite-me quando quiser. Estou à disposição a qualquer hora do dia ou da noite” dissera.
A rua ainda estava deserta. As únicas pessoas que circulavam eram as que precisavam trabalhar muito cedo ou as que estavam indo dormir muito tarde. Número 132. Lá estava ela.
Colocou tudo que carregava no chão e apertou a campainha. “Visite-me quando quiser” lembrou. Tocou novamente. Ouviu um “já vai” de longe. A espera foi demorada. O portão, ao se abrir, revelou o morador já de terno azul-marinho enfeitado com o broche de crucifixo.
— Senhor Silva, posso lhe ajudar? — perguntou o morador, com uma interrogação no rosto.
— Vim fazer a coleta.


Estágios finais do capitalismo tardio..