Caio entrou no escritório do Emmanuel com um grande sorriso no rosto. Carregando uma pequena garrafa de espumante e duas xícaras de café — vazias — disse, assim que o seu anfitrião o avistou:
— Trouxe uma bebida para comemorar.
— Comemorar o quê?
— Como assim, comemorar o quê? A sua promoção, é lógico.
— Promoção? Que promoção? Eu não fui promovido.
— Como não? É o assunto do momento. Estão todos falando sobre isso nos corredores — disse, enquanto retirava o lacre. — Não precisa mais esconder.
— Sério, não estou sabendo de nada — respondeu, um tanto confuso. Tanto a notícia inesperada quanto a comemoração proposta, vindo de alguém que ele acreditava o desprezar, tiravam-no da sua zona de conforto.
O barulho da rolha batendo no teto atraiu mais colegas ao escritório, todos se mostrando muito felizes com o sucesso do colega. Logo dividiam a pequena quantidade do prosecco entre si, brindando enquanto decidiam sobre a necessidade de se fazer uma festa de despedida.
— Por que festa de despedida? — perguntou Emmanuel, ainda sem uma xícara.
— A sua nova posição é na sede — respondeu Eduardo, do financeiro.
— Na sede? Mas não quero me mudar para a capital! — exclamou o promovido, calando todos os presentes.
O primeiro a quebrar o silêncio foi a Maria, da Expedição. Ela sabia o quanto o Emmanuel gostava de restaurantes finos, de clubes noturnos e de mulheres — ela mesma já havia presenciado suas investidas em diversas colegas. Argumentou que não havia melhor lugar no país para aproveitar esses interesses e contou diversos casos sobre conhecidos — alguns fictícios — que não trocavam a vida na metrópole por nada.
— Além do mais, você poderá receber ajuda de custo da empresa para a mudança, para aluguel e para transporte — arrematou, empolgando os demais presentes e incentivando-os a fazer mais um brinde com o restante da bebida ainda no fundo das xícaras.
Emmanuel insistiu que a história toda deveria ser algum mal intendido, pois não havia sido informado de nada do que falavam: de promoção, de mudança, de ajuda de custo, de aluguel e de transporte. Tudo era provavelmente um boato.
— Ouvi da boca da Inês, do RH. Ela virá conversar com você ainda hoje — emendou o João, da superintendência.
Emmanuel engoliu seco. Seria verdade? Uma promoção assim, do nada? Apenas um mês após ter sido humilhado pelo seu chefe — frente àquela mesma Inês — durante a reunião anual de desempenho? Por que premiariam alguém que consideravam desmotivado, sem iniciativa e ineficiente?
Ele precisava tirar essa história a limpo.
— Vou agora mesmo conversar com a Inês — decidiu, arrancando gritos de felicidade.
— Aproveita e pergunta para ela quanto tempo você ainda ficará aqui — pediu Caio, sentando-se na cadeira do futuro transferido.
Emmanuel marchou pelos corredores da empresa, atraindo olhares e comentários de quem o via — certamente já cientes da sua partida. Chegou à porta da sala da gerente do setor de recursos humanos com suor na testa e a cruzou assim que recebeu as devidas permissões.
— É uma pena que não pude trazer a notícia pessoalmente. Parece que a decisão vazou e alguns colegas ficaram sabendo antecipadamente — explicou, ao ser perguntada.
— Então é verdade? Estou sendo promovido?
— Sim, claro. Seu nome foi recomendado assim que a vaga na sede foi aberta.
— Recomendado por quem?
— Pelos gerentes de vários setores daqui.
Ele agradeceu pelo reconhecimento, mas levantou as suas ressalvas quanto à aceitação da vaga: a mudança estava fora de questão.
— Não é possível eu fazer trabalho remoto e trabalhar daqui?
— Absolutamente — disse ela, com a cara fechada. — Trabalho presencial é crucial.
— Se esse é o caso, tenho que recusar a vaga.
Séria, Inês se levantou e fechou a porta, convidou Emmanuel a se sentar e, de frente para ele, perguntou, com um olhar de irritação:
— Você tem ambições na sua vida profissional, senhor Rivero?
— Sim.
— Pretende crescer, desenvolver-se, receber função em alguma gerência, liderar pessoas?
— Claro.
— E você acha que consegue atingir esse objetivo em um local como esse?
— Como assim?
— Somos uma filial de pequeno porte, senhor Rivero. Temos poucos funcionários, poucos setores, poucos gerentes. As vagas de maior prestígio continuarão ocupadas por anos, talvez décadas. Essa oportunidade que lhe caiu no colo é a melhor chance que terá. Se a recusar, eu lhe garanto que ficará atolado na sua posição atual.
De cabeça baixa, Emmanuel pensava nas suas opções. Talvez ela estivesse certa? Afinal, ele não gostava de trabalhar ali, com os seus colegas insuportáveis e suas colegas pouco atraentes, sem contar com o chefe intragável. Novos ares poderiam lhe fazer bem. Poderia conhecer novas pessoas, fazer novos amigos, mandar e desmandar em subordinados e, principalmente, ter uma remuneração melhor.
— Quanto eu receberia de aumento? — perguntou, com o rosto vermelho.
— No momento, não haveria aumento salarial, mas é mais por uma questão burocrática. Após seis meses trabalhando lá, você pode requisitá-lo e certamente o receberá.
— Mas é garantido isso?
— Nada na vida é garantido, não é mesmo, senhor Rivero. Mas é quase certo. Posso, inclusive, colocar em sua ficha que a questão salarial precisa ser revista. Meu colega do RH da sede tomará conta disso.
Mais animado, ele perguntou mais sobre a nova posição, sobre seus futuros subordinados, sobre os benefícios corporativos. Para a sua frustração, não parecia que haveria qualquer diferença entre continuar ali e ir para a capital — com exceção das promessas futuras.
— É a melhor proposta que receberá nesta empresa. Se não for do seu agrado, pode sempre pedir demissão e procurar novos desafios em outras empresas. O mercado está muito aquecido e certamente não terá dificuldades em receber propostas. Posso escrever pessoalmente uma carta de recomendação.
Seria um blefe?
Ser considerado para uma vaga — aparentemente — tão importante significava que ele era valorizado pela empresa. Talvez a humilhação na reunião anual de desempenho fosse uma tática para não concederem um aumento salarial e eles prezavam sim, pelos seus serviços prestados.
Isso o colocava em uma excelente posição.
Poderia negociar melhores condições na sua nova posição.
Era o momento de dar o bote.
— Quero o cargo de gerente e o aumento salarial desde já, ou não aceito a vaga.
De olhos arregalados, Inês o encarou. Os dois sentiram um frio na espinha. E se tudo falhasse? E se ele tivesse que permanecer ali?
O silêncio que invadiu o escritório foi quebrado pela anfitriã, que, gaguejando, disse que não tinha autoridade para oferecer o que era pedido.
— Vamos ser razoáveis, senhor Rivero.
A fraqueza demonstrada foi percebida pelo Emmanuel. Estava em vantagem. Era tudo ou nada:
— O momento de ser razoável já passou. Se vocês não querem colocar no papel o que oferecem não-oficialmente, então eu não considero esse relacionamento como respeitoso. Não posso continuar em um lugar assim. Talvez o meu pedido de demissão possa mostrar à direção que sei do meu valor. A sede vai adorar saber que você não conseguiu me manter.
Truco.
Ele sentia calor.
Tentava ler as expressões faciais da sua oponente.
Logo veria um olhar de pânico. Uma tentativa de negociação. Uma proposta. Vinte por cento de aumento, ele pediria. Fora aluguel e carro da empresa. E uma secretária.
Viu o canto da boca dela tremer e se mover levemente para cima.
Expirou longamente.
Parecia tentar colocar a boca sob controle.
Aquilo era um sorriso?
— Senhor Rivero, eu sinto muito que o senhor se sente desta maneira, mas eu o compreendo completamente. Avisarei a sede sobre as mudanças de planos e enviarei ao senhor ainda hoje uma carta de demissão para ser assinada.
Carta de demissão?
— Carta de demissão? — perguntou, com os olhos arregalados.
— O senhor tem toda a razão de nos criticar. Não podemos agir desta maneira com alguém tão precioso quanto o senhor. A quebra de confiança é algo inaceitável. Faço questão de preparar a carta, assim como a carta de recomendação que ofereci anteriormente.
— Mas…
— Será que o senhor pode se retirar, por favor? Há muito o que resolver, visto as mudanças.
— Mas é porque…
— E não se preocupe em ter que cumprir aviso prévio — emendou, levantando-se e indicando o caminho da porta. — Abriremos mão dessa exigência para auxiliar o senhor a conseguir uma colocação mais imediata. É o mínimo que podemos fazer.
— Mas senhora Silva, não acredito que isso seja completamente legal. O período do aviso é de um mês.
— E pagaremos por esse período. Mas suas funções podem ser terminadas desde já — disse, colocando-o para fora da sala. — Foi um prazer tê-lo conosco em nossos quadros e sinto muito por termos que encurtar a nossa relação.
Porta fechada.
Ele olhou em volta.
O que aconteceu?
Acabou de ser demitido? Mas não queriam promovê-lo?
Deveria ser um blefe. Era a única explicação.
Caminhou até o seu escritório. Ainda estava repleto de colegas, comemorando a sua promoção. Iriam ficar tão desapontados. Como jogar a péssima notícia na cara de todos?
A melhor opção era ser honesto. Dizer que tentou negociar e acabou sendo demitido.
Talvez a história provocasse a ira dos colegas que demandariam que a promoção fosse efetivada. E ele poderia pedir os vinte por cento. Pagaria uma rodada para todos. Não, bancaria a festa de despedida. Com champanhe de verdade, comida. Ou talvez duas garrafas de prosecco fossem o suficiente.
Ao cruzar a porta, todos o olharam.
— Eu recusei a vaga — disse, em alto som.
— Recusou, por quê? — perguntaram, atônitos, uníssonos.
— A proposta era ridícula.
Comoção.
Não era possível, disseram. Talvez pudessem fazer pressão, mostrar à direção a importância da transferência.
Iriam em peso até a sala da Inês. Ela iria ser convencida.
Caio e Maria saíram juntos, precipitados, preparados para confrontar a direção dos recursos humanos.
— Decidi pedir demissão — revelou.
Demissão? Que história era essa? Chamaram o Caio e a Maria de volta. Eles precisavam ouvir aquilo.
Era a hora de ser honesto.
— Recebi uma proposta superior de uma outra empresa e a aceitei — soltou, descontrolado.
— E até quando ficará conosco — perguntou Ricardo, do financeiro.
— Hoje será meu último dia. A Inês Silva abrirá mão do aviso prévio para que eu possa assumir a nova posição imediatamente.
Silêncio.
Todos olhavam ao redor, uns para os outros. Seria verdade?
— Isso é maravilhoso, Emmanuel! — gritou Caio, com sua xícara vazia em mãos. — Ficamos muito felizes com o seu sucesso profissional!
Aplausos.
Como estavam felizes com a sua conquista.
Ouviu de uns sobre celebração. Hoje à noite, amanhã? Não soube ao certo.
Talvez a notícia encontrasse os ouvidos do chefe e ele fizesse uma contra-proposta.
Um grande mutirão foi organizado.
Ajudariam-no a arrumar as suas coisas.
Enquanto tentava entender o que acontecia, recebeu a visita da Inês e de um segurança. Precisava de uma assinatura para a carta de demissão e, assim que a recebeu, entregou-lhe a carta de recomendação prometida, já assinada pelo chefe.
— O Enzo o acompanhará até a portaria para ajudá-lo a carregar as suas coisas.
Enquanto caminhava pelos corredores, via vários sorrisos dos colegas por quem passava. Estavam tão felizes por ele.
Teria ouvido uma gargalhada?
Estavam felizes por ele.
Por ele?
Estavam felizes.

