A conversa era tensa.
O que era para ser uma agradável noite na pizzaria para celebrar o seu aniversário de casamento se transformou em um verdadeiro brainstorming sobre o futuro do casal. O motivo: Marlon se sentia miserável com o seu emprego e não conseguia tirar a sua mente dos problemas que enfrentava no escritório. Eles queriam encontrar uma solução conjunta.
Enquanto discutiam as finanças — e a possibilidade de sobreviverem somente com um salário — Fabiana sentiu uma batida na sua cadeira. Olhou para trás e para baixo e viu Mel, olhando para cima e encarando-a com os seus grandes olhos castanhos.
— Perdão — disse o homem que a segurava pela coleira. — Ela é um pouco afobada. Por isso usa a coleira.
Desculpas aceitas, Fabiana quis voltar à conversa, mas sua atenção era constantemente interrompida pelos movimentos do pequenino ser amarrado pelas costas com a longa corda.
— Para que essa coleira, se dá para ela ir para todo o lugar do restaurante — comentou Marlon, ao perceber que a esposa a vigiava. — Ou você quer uma dessas para você?
— Uma coleira?
— Você sabe que não falo da coleira.
— Prefiro um gato.
— Gato não dá para carregar para lugar nenhum. Tem que ficar em casa. Um cachorro seria mais divertido.
— E você queria carregar um cachorro para um restaurante? Para ele ficar andando de mesa em mesa, esbarrando nas cadeiras?
— Por mim, na verdade, não seria nem gato nem cachorro. Você sabe disso.
— Se bobear é mais fácil levar um cachorro do que uma criança para um restaurante — rebateu Fabiana, desinteressada em falar sobre procriação. Apontando para Max, correndo à distância, perto do playground, disse: — Olha ali, aquele ali está solto e está mais afobado do que a que usa a coleira.
— Não compare cachorros e crianças, Fabiana — reprimiu Marlon.
— Não quero voltar nesse assunto agora — emendou a esposa, convidando o silêncio à mesa.
Os dois olhavam os pequeninos correrem, sem rumo, famintos. À sua volta, viam os outros clientes se irritarem com as trombadas e com o barulho dos dois.
— Parece que preferem o que está solto — comentou Fabiana, com um meio sorriso.
Marlon, engasgando-se por causa da nova comparação, teve que dar o braço a torcer:
— E você se surpreende? O que você acha que o povo prefere, cachorros ou crianças?
A pergunta deixou de ser respondida com o encontro dos dois pequeninos, frente à sua mesa. Encantada com o filhotinho, a criança passou a mão na cabeça do cachorro, provocando um êxtase no bichinho.
Fabiana não pode negar: era uma cena adorável. O seu sorriso chamou a atenção dos dois danadinhos. Recebeu uma risada de presente. Perguntou:
— Como você se chama?
A criança respondeu:
— Mel.


Já pode juntar seus contos e publicar um livro!
Fiquei preso à conversa séria do casal e fui completamente apanhado de surpresa pelo twist no último segundo. A escrita que nos faz reler a cena imediatamente com outros olhos é a melhor que há.
Escrevo frequentemente sobre estas descobertas e inquietações no meu Substack gratuito (https://substack.com/@nunonabaisfreire). Passa por lá se quiseres espreitar e deixa o teu feedback ou a tua perspetiva, a tua opinião seria muito bem-vinda!