Quando as três luzes apareceram no céu noturno eu era apenas uma criança. Minha mãe, fascinada com os céus, me levou a uma plantação de grãos no meio da noite para que eu pudesse ver, com a ajuda de um telescópio amador, as caudas daqueles cometas que vinham em nossa direção.
Ela me disse que eles foram ejetados de um outro sistema solar devido a um buraco negro ou a um planeta desconhecido e que iam passar na nossa vizinhança.
Lembro do medo que senti ao ouvir aquela explicação, achando, na minha lógica juvenil, que eles poderiam cair sobre a minha cabeça. Quando eu resolvi compartilhar minha fobia, ela me assegurou que não haveria riscos para a minha cabeça ou qualquer outra parte do meu corpo e me tranquilizou contando que antes de eu nascer um cometa similar havia passado por nós, provavelmente vindo da mesma região dos três corpos celestes que agora vinham. Na ocasião, ele se aproximou por anos até um dia subitamente desaparecer. Este comportamento, somado às suas cores e à forma incomum da sua cauda intrigou os cientistas por anos, até que se chegou à conclusão de que a razão seria sua rara composição química. Disseram que certamente mais cometas similares apareceriam. Eles estavam certos.
Íamos com frequência a lugares mais desertos e sem poluição luminosa para podermos avistá-los e logo passei a entender o porquê de tanta comoção, tanto por parte da minha mãe quanto do restante do planeta: eles eram deslumbrantes!
Assim que as três luzes puderam ser vistas a olho nu ao amanhecer e ao pôr do sol, fomos informados sobre a verdadeira natureza: não eram cometas, eram visitantes.
Na época não sabíamos, mas os governos de todo o planeta já sabiam da chegada dos viajantes anos antes do aparecimento das três luzes.
Hoje sabemos que nenhuma das quatro luzes eram um cometa e sim visitantes da estrela mais próxima do nosso sistema solar. Eram os exaustores dos foguetes sendo acionados para desacelerar as naves para que elas pudessem entrar em nossa órbita.
A primeira luz, vista na geração da minha mãe, fora o primeiro contato, feito de forma sigilosa pelos cinco governos mais poderosos do planeta. Os visitantes nos observaram por décadas através de centenas de sondas não tripuladas, pequenas demais para que pudéssemos detectá-las com nossa tecnologia. Com elas, aprenderam sobre nossas línguas e costumes antes de decidirem vir pessoalmente. No primeiro contato, fomos apresentados aos nossos vizinhos cósmicos, que nos asseguraram virem em paz. O seu objetivo era fazer trocas culturais. Foi nesse encontro que fomos avisamos que mais viriam.
Quando finalmente a população foi informada da verdade, houve muita comoção. Presenciamos crises na fé, na filosofia, na ciência e no convívio social. Por fim, a poeira baixou e os governantes decidiram que era hora de sermos apresentados.
A primeira nave, que chegou pouco antes de eu nascer, ainda estava em nossa órbita, apenas esperando o momento certo de dizer “alô” ao povo. E assim o fizeram. A sede da mais importante organização multilateral do planeta foi escolhida como local para se fazer a apresentação.
Foi um verdadeiro choque. Eles não eram tão diferentes quanto poderíamos esperar, o que abriu todo um novo campo de especulação sobre a possibilidade de termos uma origem em comum. O discurso dado, feito em uma das nossas línguas, foi de paz e união, deixando todas as testemunhas em êxtase.
Como bons visitantes, eles pediram a permissão para que pudessem extrair matéria-prima nos planetas e asteroides do sistema solar para que pudessem fabricar combustível para voltar para casa. Dada a permissão, eles prometeram investir em infraestrutura interestelar, para que viagens entre os dois sistemas fossem feitas de forma cotidiana.
Foram tempos de otimismo. O universo era menor. Nosso horizonte se expandia.
No ano em que as três naves chegaram, uma seleção foi feita entre cidadãos de todo o planeta para que fossem levados ao planeta de origem dos nossos visitantes como forma de aumentar o intercâmbio cultural. Todos presenciaram o lançamento da nave com os dez sortudos escolhidos. A luz dos exaustores pôde ser vista por anos durante as noites. Antes que ela desaparecesse, mais luzes surgiram no céu.
O que se seguiu foi um intenso trabalho para se construir estações espaciais e complexos industriais, tudo feito com a justificativa de integração.
A dimensão das operações levou aos primeiros atritos entre nós e eles. Vários governos criticavam a forma como tudo estava sendo feito, sobretudo com a possibilidade de esgotamento dos recursos naturais que poderiam ser essenciais para nossa sociedade do futuro. Este foi a argumento usado para a criação da Liga Local de Nações, que queria proibir a continuação das explorações, pelo menos da forma extensiva que estava sendo feita. Como contraponto a esta organização e em apoio aos visitantes foi fundada a Comunidade Interestelar, que acreditava que tínhamos muito mais a ganhar com o intercâmbio.
As relações entre as duas partes se deterioraram rapidamente, levando o planeta à guerra.
O conflito foi rápido. A tecnologia deles era tão avançada em comparação com a nossa que bem poderíamos ter chamado de mágica, pois simplesmente não entendíamos como tudo havia sido feito.
Todas as armas nucleares do planeta foram desativadas simultaneamente, bem como todas as armas mais avançadas que tínhamos à disposição. Obviamente auxiliados pelos visitantes, os países da Comunidade Interestelar não perderam sequer uma batalha e tomaram o controle de forma devastadora.
Ao fim do conflito, o planeta estava unido em apenas uma organização governamental: a Federação de Nações.
Foi esta federação que pediu auxílio aos visitantes para que uma estrutura governamental planetária fosse montada. Apesar de terem ganho a guerra, eles tinham dificuldade de exercer um controle total, sobretudo devido a grupos que não aceitavam o domínio federal. Com a justificativa de prezar pela segurança da população, eles fizeram acordos para serem auxiliados no cumprimento de leis e na manutenção da ordem.
Esse aumento de contato entre eles e nós nos proporcionou diversas benesses que estaríamos longe de alcançar por conta própria. Além de avanços tecnológicos significativos, fomos instruídos em física, química e biologia, além de política e filosofia. Avistar visitantes passou a ser algo comum e não demorou para começarmos a tê-los como vizinhos, colegas, fornecedores e compradores.
Estes imigrantes ajudaram a quebrar vários paradigmas que tínhamos em relação ao convívio social e religião, e logo passamos, inclusive, a entrar em contato com a sua cultura. Minha irmã mais nova fez parte da primeira geração que teve que estudar a língua mais falada no mundo desses parceiros interestelares.
Mas não foram apenas eles que tinham algo a oferecer. Apesar de possuírem uma avançada ciência e uma rica cultura, eles valorizavam muito o que era feito por nós. Vários de nossos produtos alimentícios, por exemplo, eram altamente desejados no seu planeta natal. Além disso, a nossa riqueza biológica era muito valorizada, sendo constantemente objeto de seus estudos.
E tinham os nossos recursos minerais.
Antes da guerra de unificação, eles se restringiam a explorar recursos do nosso sistema solar. Recursos que eram completamente inacessíveis para nós. Após os acordos, eles passaram a fazer mineração no nosso próprio planeta. Aparentemente, temos abundância de elementos que para eles são raros, mas fundamentais para a sua tecnologia. Algo relacionado à maneira como os seus computadores funcionam.
As operações começaram de forma tímida com a criação de uma pequena mina, mas cresceram exponencialmente, causando devastação e desastres socioambientais. Para combater estes problemas, foram criadas organizações civis pacíficas, que almejavam encontrar soluções usando o sistema judicial, e grupos armados que faziam o uso da violência para atingir seus objetivos.
Ambos os tipos de associações eram primeiramente restritos a relativamente poucos integrantes, mas ganharam adeptos e apoio popular após a morte violenta de uma estudante que protestava contra a mineração na sua vila natal. O assassino, um soldado visitante que fazia a segurança do complexo industrial, foi julgado de acordo com as leis do seu planeta e absolvido, o que provocou a ira de parte da população, que foi às ruas.
Visitantes foram mortos ou tiveram suas propriedades depredadas. Uma delas foi a maior mina do mundo, pertencente aos visitantes.
A retaliação veio sem piedade.
Sua tecnologia foi usada para rastrear todos os responsáveis por quaisquer crimes cometidos, resultando em um encarceramento em massa. A pena de morte foi aplicada indiscriminadamente. Propriedades pertencentes a depredadores foram confiscadas e dadas a imigrantes.
A crueldade com que foram executadas as penas fez com que o governo protestasse.
Para eles, era óbvio o que tinha que ser feito.
O anúncio foi feito no mês seguinte.
Nosso planeta foi incorporado à União, nome dado à sua estrutura política. Interventores vindos do nosso vizinho cósmico foram nomeados para nos governar. Em nome da paz e da prosperidade algumas garantias básicas nos foram vedadas.
Para eles, nos transformamos no que, traduzido da sua língua, chamaríamos de “colônia”.
E hoje, quando olhamos para cima, vemos luzes. Centenas, talvez milhares. Naves chegando e partindo.
As que chegam trazem novos colonos à Colônia. As que partem levam nossos recursos ao seu planeta, a Terra.


Uma história não tanto extraterrestre, infelizmente