Ao fechar a porta do apartamento que iria passar, sozinho, as suas férias de verão, ele começou a sua vistoria. Passou pela cozinha para verificar se ela era bem equipada, pelo banheiro para atestar era limpo, pela sala para confirmar que era aconchegante e pelo quarto para certificar-se de que era silencioso. Ao fim do tour, estava feliz pela escolha do local — que ele só vira por fotos e que tinha achado brega — e pôde, finalmente, tomar um banho e relaxar.
Sentou-se no sofá e pediu comida pelo telefone e, enquanto esperava, ouviu um novo barulho, o qual ainda não notara. Caminhou pelo imóvel à procura da sua fonte e, ao encontrá-la, surpreendeu-se por não tinha visto aquela peça enquanto fazia a inspeção do local.
A sua cor dourada era claramente uma tentativa de se imitar ouro e de dar uma impressão de ser algo caro, apesar do péssimo acabamento das gravações de números e letras na sua parte frontal. Aquele era um objeto feito com exclusividade, o que podia ser notado pela sua forma incomum e por suas curvas assimétricas, mas que pecava pela sua ineficiência em efetuar a função a qual fora projetado para exercer.
— Isso é, claramente, um defeito. Se funcionasse bem, eu não ouviria nada — disse ele, a si, enquanto tentava, de alguma forma, abafar o ruído repetitivo.
Ele não entendia como não tinha reparado naquele ensurdecedor incômodo quando chegou no local e se questionou se tinha, de alguma forma, o provocado. “Talvez quando bati a porta do banheiro algo saiu — ou entrou — no lugar e o barulho começou”, pensou, tentando achar uma explicação lógica.
Distraiu-se com a comida que chegou e não ouviu nada enquanto comia, na sala, o delicioso lanche. Apenas após lavar as suas mãos foi que ele se lembrou — e voltou a ouvir — o ruído que o incomodava.
Para o seu desespero, durante a noite o incessante som atravessava as paredes do imóvel e agredia os seus ouvidos, parecendo estar ainda mais alto. Foi quando decidiu que não havia como continuar. Foi até a cozinha e apanhou um martelo de amaciar carne e o levou até o banheiro, onde ele desferiu diversos golpes no objeto, na tentativa de fazê-lo calar. A sua desproporcional força utilizada, no entanto, danificou não só o alvo desejado, como também outro objeto que estava ao seu lado. Agora tanto o relógio quanto a torneira estavam quebrados.


Lembrei de um ditado turco: aquele que se levanta com raiva, se senta com prejuízo hahaha